PROJETO RUMO: AMÉRICA
Finalmente parti! Não é dizer que chegou a hora, porque parece que essa hora nunca chega, mas finalmente aconteceu!
Minha amiga Priscilla fez manobras radicais para poder começar a viagem comigo, equacionando suas férias nos dois empregos e ainda com a morte de seu pai na última semana. Diante de toda a dureza da circunstância e em meio a algumas dúvidas, ela deu seu ultimato: eu vou!
Eu tratei de não deixá-la na mão me embrenhando em plena maratona para sairmos realmente dia 1º de julho. Pri tinha seus dias contados e queria colaborar para aproveitá-los da melhor forma possível, além de que eu já vinha me preparando havia um bom tempo, mas a hora H parecia nunca chegar.
Devido à época do ano, sair pelo norte da América do Sul era o mais lógico. Em pleno inverno, não caberia começar esta etapa pelo sul da Argentina e Chile, possibilidade considerada anteriormente. Então, a porta de saída escolhida foi o Acre, dando início a esta aventura pelo Peru, percorrendo a Transoceânica, estrada em plena construção que corta a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes, ligando o norte do Brasil ao Oceano Pacífico pela costa peruana.
O trecho dentro do Brasil já está pronto, pelo menos no que se refere de Rio Branco à fronteira, em Assis Brasil. O que será necessário é ligar o Acre ao restante do Brasil de forma decente. A rodovia existente está bastante precária no trecho que liga Rio Branco, no Acre, até Porto Velho, em Rondônia, com trechos em terra e bastante esburacados, além da travessia em balsa do Rio Madeira, ao invés de ponte. Enfim, o Acre estará ligado ao mercado peruano e ao escoamento da produção pelo Pacífico e com certeza isso vai gerar um grande desenvolvimento no Estado, que hoje está principalmente voltado à agropecuária, depois do ciclo da borracha, da ocupação das terras e da exploração da madeira.
Bom, nossa meta era chegar o quanto antes na divisa com o Peru, e de lá “começar” nossa aventura.
Como a Priscilla já tinha sido minha companheira na viagem de ida para a Venezuela em 2002, até Porto Velho já tínhamos feito com tempo para conhecer melhor alguns lugares. De lá pegamos a balsa para descer o Rio Madeira até Manaus, para então seguirmos com o carro cruzando o BV-8 (uma das fronteiras Brasil-Venezuela), a Grand Sabana e chegarmos em Puerto La Cruz, já no mar caribenho, onde meu namorado, na época, estava com seu veleiro.
Agora, meu foco também não estava voltado para o Brasil, etapa concluída com o Projeto Rumo: Brasil 2000, então, seguimos direto rumo a Assis Brasil, fronteira com o Peru.
Saímos dia 1º de julho as 18 h, pra não dizer que não saímos na data combinada, e seguimos 342 km pela Rodovia Castelo Branco. Adiantamos algo!
Sinto que valeu a correria final, em meio aos preparativos que há tanto vinha me dedicando e as despedidas em família e com os amigos. Saio contente e com a sensação de estar realizando mais uma meta determinada, apesar de ter o coração dividido. Sinto que deixo para trás neste momento situações que vem se tornando importantes no meu contexto de vida. Mas o jeito é seguir em frente, confiante de que o que tiver que ser será, mesmo porque não depende só de mim!
 Despedida em familia
Dia 01/Julho/2007 - Domingo Saímos, Priscilla e eu, de Salto, interior de São Paulo, da casa do meu pai, via Castelo Branco. Por volta das 23h paramos num posto para dormir. Percorremos hoje 342 km.
Dia 02/Julho/2007 - Segunda Depois de um café da manha e funções no posto, pegamos estrada rumo ao Mato Grosso do Sul. Passando o Rio Paraná já muda a paisagem e começam os ares do Pantanal com o aparecimento de araras, seriemas e até uma raposinha. Impossível não lembrar do amigo Jean Paul Besson estando por essas paragens. Quem o conhece e sabe da sua paixão por essas terras entende!Ainda sem um ritmo determinado, paramos para almoçar, coisa que normalmente não faço quando ainda tenho chão pela frente. Da aquela preguí depois! Enfim, experimentamos! Lindo por de sol na estrada! Paramos para pernoitar num posto em Rio Verde, Mato Grasso do Sul. Aqui tomamos banho com ficha que dá direito a oito minutos de água. Uhau! Percorremos hoje 751 km.
Dia 03/Julho/2007 - Terça Saímos as 7h. Pé na estrada até Cuiabá, onde passamos para uma “visita de médico” ao amigo Bira. Liguei da estrada e soube que ele estava de cama com a bacia quebrada. Aconteceu no último fim de semana, as vésperas do seu casamento. Por essa ninguém esperava! Ou será que é uma tentativa de saída pela tangente?! Brincadeirinha Camila! Seguimos viagem até as 21:30h, parando noutro posto para pernoitar. Desta vez em Pontes Lacerda, em Mato Grasso. Aqui já estamos com fuso de 1 hora menos que em Brasília. Percorremos hoje 908 km.
Dia 04/Julho /2007 - Quarta Saímos as 6:45h. Mais um dia queimando asfalto! A meta é chegar o mais próximo de Rio Branco, Acre, para conseguir fazer a revisão do F-350 na Ford amanhã. Eu dirijo... Pri dirige... e assim seguimos entre o silêncio e a contemplação da paisagem... uma música para variar... Em Porto Velho pegamos a apólice do seguro RCTR-VI (em resumo, contra terceiros no exterior), que o corretor Roberto agilizou de São Paulo. Valeu, obrigada! Outra noite em posto. Agora em Jaci-Paraná, Rondônia. Percorremos hoje 1.060 km. Recorde até agora!
Dia 05/Julho/2007 - Quinta Saímos as 4:30h de la matina! Queremos chegar em Rio Branco! Daqui até o Rio Madeira trecho bastante esburacado e parte de terra. Difícil acreditar que é a única estrada que liga o Acre ao Brasil. Travessia do rio por balsa ainda e não ponte. Pela estrada fazendas e mais fazendas, desde a saída no interior de São Paulo, só que aqui o “desenvolvimento” é mais recente e ainda se nota a transformação da floresta em campo. Chegamos em Rio Branco às 11h, hora local, com fuso de 2h menos que em Brasília; é o único Estado com o terceiro fuso horário do Brasil. As 11:25h estávamos na concessionária, onde já nos aguardavam para a tal revisão. Nada de excepcional. O carro é forte! Apenas troca dos filtros e óleos e um reaperto geral. Diga-se de passagem, o carro ficou muito bem equilibrado no conjunto e vem se desempenhando de forma muito eficiente. Lembre-se que ele é o Atlas e está com “meu mundo” nas costas! Enquanto acontecia a revisão, Pri e eu fomos a pé até o centro fazer bancos, nos informar sobre o câmbio, almoçar e aproveitamos para visitar o Museu da Borracha e o Palácio Rio Branco. Um pouco da historia do Acre! Munidas com o Atlas novamente, fomos ao supermercado nos abastecer antes de sair do Brasil. No posto onde dormimos, na entrada da cidade, ainda aproveitei para dar uma reorganizada nas tulhas externas e deixar mais a mão os equipamentos do guincho que poderiam vir a ser úteis no próximo trecho. Me lembrei aqui mais uma vez do amigo Claudio Romi, da Auto 4, quem me forneceu tais equipamentos. Nem consegui levar o carro pronto até ele antes de sair, mas será o primeiro a ser visitado na volta, se eu não vier a ter antes sua companhia em algum trecho desta etapa. O convite já está feito, você sabe! Percorremos hoje 424 km.
 Saindo do centro de Rio Branco - Acre... e entrando na Transoceânica
Dia 06/Julho/2007 - Sexta Conseguimos sair do posto às 8h, depois de uma “bela” noite barulhenta. O posto era o point da moçada que passou a madrugada bebendo e com o som do carro no último volume. Já viu né! Bom, fomos acabar de cuidar do Atlas fazendo alinhamento e balanceamento. As 13h estávamos de volta a estrada rumo à fronteira, finalmente! Chegando em Epitaciolândia fomos a Policia Federal dar nossa saída do Brasil. De lá nos indicaram para passar pela Alfândega em Brasiléia, mas chegando no local indicado nos mandaram de volta para a outra fronteira. São duas que fazem divisa com a Bolívia, mas apenas uma trabalha no período da tarde e é tida como “oficial”. Não me pergunte o que faz a outra a 1 km de distância desta! Em Assis Brasil, mais adiante um pouco e por onde sairíamos, os escritórios da Policia Federal e Alfândega ainda não estavam ativados. A previsão era para o próximo dia 10 de julho. “Almojantamos” em Brasiléia e seguimos até a fronteira. Neste trecho começa oficialmente a Transoceânica. Pernoitamos no pátio da Policia Federal e tivemos uma noite muito tranqüila. Percorremos hoje 352 km.
 Entrando no Peru
Dia 07/Julho/2007 - Sábado As 8:35 estávamos saindo, ansiosas por entrar no Peru, terra nova e desconhecida para nós! Ainda na vila tratamos de trocar o botijão de gás que abastece a geladeira (quando o carro não está em movimento ou plugado numa rede externa), o fogão e o aquecedor do banheiro. Sem ele nossa vida no camper fica bastante limitada! Na entrada do Peru tudo ok com a documentação. Nós, em meio a tanta burocracia, é que acabamos nos atrapalhando um pouco e não fazendo cambio e nem abastecendo ali, em Inampari. Tudo bem, de algum jeito resolvemos o assunto em Ibéria, localidade 67 km adiante. Serviu para nos botar mais atentas! Me sentia num “far west” andando por esta localidade; ruas de terra, construções de madeira, meio no meio do nada e a um ano e meio se beneficiando do movimento das obras da rodovia, que muito próximo dali tem um de seus imensos canteiros de obras, verdadeiras mini cidades. Na semana anterior havia sido inaugurado o primeiro trecho asfaltado dentro do Peru, até aqui. Daqui em diante seguimos por terra, mas com as obras muito bem sinalizadas. Sem maiores dificuldades seguimos até Puerto Maldonado, onde tomamos uma balsa par atravessar o Rio Madre de Dios, chegando assim à cidade. Quando entramos parecia que estávamos chegando na China. Motos e moto-taxis, além de carros, indo e vindo de todos os lados e com a mão na buzina sem dar uma única trégua; passar num cruzamento era quase uma loteria, principalmente com um veiculo do tamanho do nosso, mas nos divertíamos com tudo isso, e procurando onde abastecer o carro, Pri bateu o olho numa esquininha com uma “parrilla” do lado de fora e foi ali mesmo que nos abastecemos também, ao lado do posto de gasolina. Comemos “pollo canga”, que vinha a ser um frango grelhado acompanhado com uma massa de plátano (tipo de banana) socada com manteiga e alguns condimentos. Muito bom, não fosse que meu pedaço de frango ainda não tinha ido para engorda. Para beber provamos sucos de “maíz morado” (feito de um milho roxo) e “cocona” (uma fruta da região com aparência de caqui e gosto semelhante ao pêssego). Valeu! Para pernoitar conseguimos um estacionamento dentro de um hostal (tipo de alojamento mais simples) e onde teríamos banho, mesmo que frio. Percorremos hoje 258 km.
 Puerto Maldonado La parrilla en la esquinita
Dia 08/Julho/2007 - Domingo As 6:30h estávamos de pé. Dia de visita ao Lago Sandoval, na Reserva Tambopata, região de selva peruana. Com a guia Beti Montero Saamona, um barqueiro nos guiou pelo Rio Madre de Dios abaixo por cerca de 45 minutos, nos deixando a beira de um barranco. Depois de passar pela guarita do parque e fazer os devidos registros, seguimos 5 km adentro caminhando por uma trilha muito agradável até chegarmos ao lago onde, com um bote a remo, sem fazer barulho, percorremos as margens observando uma variedade de pássaros, lagartos e tartaruguinhas aquáticas. Esta é uma zona pantanosa onde crescem árvores exóticas e habita uma grande variedade de aves como patos silvestres, tucanos, guacamayos e variadas espécies de galinhas selvagens (vimos muitas!). Depois do almoço fomos a uma caminhada pela mata mais fechada. Pri queria ver de perto uma árvore castanheira e no caminho encontramos uma família de macacos tirando uma “siesta”. Voltamos para a beira do rio já além da hora prevista, mas o barqueiro nos esperava num sono profundo. Rio acima voltamos para Puerto Maldonado, mas o nosso “gás” ainda não tinha acabado. Saímos pela cidade experimentando coisas: o refri Inca Cola numa mini mercearia onde compramos água; a cerveja Cusqueña num boteco; depois pegamos uma moto-taxi até a tal esquininha de ontem e jantamos lá novamente, desta vez comemos “Juane com Gallina”, que vem a ser arroz com galinha cozidos na folha de "bijao". De lá ainda seguimos para a Plaza de Armas, onde comemos uma sobremesa e assistimos algumas apresentações folclóricas. Ufa! De volta ao carro/hostel, banho e cama. Andamos a pé hoje mais de 10 km.
 Remando no lago Lago Sandoval
Dia 09/Julho/2007 - Segunda Depois da programação intensa de ontem, só fomos conseguir pegar estrada às 10:30h. Nos despedirmos de Maritza, a mui amable atendente do hostel, e de Beti, nossa guia, que veio ainda nos dar um oi. Gente da terra, morou muitos anos a beira do Madre de Dios e se mostrou sempre interessada em nos mostrar as frutas, as plantas e suas utilidades medicinais, os bichos e seus barulhos, os lugares na cidade, enfim, o universo que estávamos conhecendo. Transoceânica, aqui vamos nós novamente! Neste trecho a estrada estava bastante esburacada e se via pouca gente trabalhando. Os táxis corriam para não ficar atrás de nós comendo poeira e quando víamos, estavam quase jogando os passageiros e suas tralhas na sarjeta para continuarem na nossa frente e não dar tempo de passarmos. No km 140, em Santa Rosa, começamos a subir. A 167 kms está Mazuco. Até aqui foram 6h de viagem e neste ponto a estrada estava fechada até às 18h por causa das obras da rodovia. Aproveitamos para “almojantar”; frango assado com batata frita e salada de repolho com tomates; nada de tão diferente, a não ser que eles botam o frango já assado em cima do balcão e com um facão, num tiro certeiro, destroçam o frango e colocam no seu prato o que te cabe; ¼ , ½ , ¾ ou 1 frango. Pedimos ¼ cada, para não ter briga! Neste fim de mundo, acreditem, meu celular tocou! Era meu pai, curioso por saber onde estávamos. Ele anda me seguindo por um mapa em seu escritório. Coisa engraçada de se ver, depois de tantos anos que vivo pelas estradas. Ele nunca fez isso antes em todas as minhas andanças! Pelo menos que eu soubesse!!! As 18h seguimos viagem, mas não muito além. Já estava quase noite e aqui o movimento de terra pelas obras é muito grande. Estão desviando o curso do Rio Inambari, que não é pequeno, e mal se via por onde passava a estrada. Seguimos por um tempo uma pick-up da empreiteira, mas na primeira vila que apareceu paramos para pernoitar. Já instaladas, parou do nosso lado outra pick-up. Pensei ser aquela da empreiteira que nos guiou, mas era da Policia Federal. Pediram os documentos; tudo ok! Nos alertaram dos “perigos” no alto da serra. Estavam ali no combate contra o tráfico de drogas e se prontificaram a fazer a vigília da noite ao lado do nosso carro para nos dar “segurança”. Essa é boa! Ficaríamos mais tranqüilas sem eles! A convivência num espaço reduzido e por um tempo mais longo pode gerar algumas vezes situações delicadas. Pri e eu aproveitamos para conversar um pouco a respeito. O momento para ela não era fácil, com a perda do seu pai. E eu, por outros tantos motivos, ando hipersensível. Foi ótimo! Percorremos hoje 184 km.
 Alterando o curso do rio Pela região de selva
Dia 10/Julho/2007 – Terça Chuva e frio durante a noite! Além de ouvirmos até bem tarde máquinas trabalhando com movimentação de pedras. Acordamos cedo e aproveitamos para fazer render o dia. As 6:45h saímos. Viajamos todo o dia subindo... subindo... passando por vales e povoados campesinos... estradinhas pelos bordes das montanhas... Neste trecho começamos a presenciar o modo de vida desta gente andina. Em patamares, eles plantam até o topo dos morros. Criam seus bichos (llamas, alpacas, vicuñas, cerdos, gallinas e res) para o consumo de carne, queijo, leite e produção de lã para a vestimenta. Com isso suprem suas necessidades. Fico pensando o que vai virar isto com a passagem da estrada!? Depois, viemos a descobrir que este foi o trecho mais bonito da viagem enquanto estivemos juntas, Pri e eu. Na chegada ao topo da cordilheira, com neve, eu ainda estava de bermuda e camiseta. Tínhamos saído da região de selva ontem, e hoje estávamos sob uma fina nevasca. Lindo!!! Mas também já começávamos a sentir os males da altitude; sonolência, dor de cabeça e um certo cansaço. Por isso acabamos parando mais cedo, no povoado de Marimã, de frente a um cerro nevado, e tratando de nos aquecer. Banho inaugural no camper. Estávamos a mais de 4.000m de altitude!Percorremos hoje 188 km.
 Bordeando as montanhas Vida andina
Dia 11/Julho/2007 - Quarta Nevou durante boa parte da noite! Passei bem mal toda a noite! Muita dor de cabeça, dor no corpo, enjôo, vomitei. Quando Pri acordou, também estava mal. Ainda nevava fino! Tratamos de nos mexer para sair dali. Conseguimos sair as 8h. Até Cuzco foram umas 4h de viagem. Neste trecho também muito movimento de terra e pedra em outro rio. Paramos em um povoado pra comprar uma manta colorida, mas tava difícil de achar algo bonito no estado em que estávamos. Seguimos e os desvios nos mandaram por uma estrada secundaria de terra para chegar em Uros, cidade antes de Cuzco. A paisagem era muito linda e a estradinha do jeito que eu gosto, não fosse nosso estado físico deplorável. Nem curtimos direito!Na entrada de Cuzco, Priscilla notava muitos policiais pelas ruas e quase não havia carro circulando. Chegando até próximo a Plaza de Armas, paramos para pedir informação e soubemos que estava acontecendo uma “paro” geral no Peru. Dois eram os motivos: os campesinos, apoiados pela população, estavam se manifestando contra o aumento de produtos básicos como açúcar, grãos, etc... sem a valorização dos produtos do campo produzidos por eles; e os professores se manifestavam contra nova lei onde teriam de passar por exames de avaliação para se manterem em seus cargos e terem uma melhoria salarial, caso contrario, teriam duas outras chances de reabilitação e se ainda assim não conseguissem aprovação, perderiam seus cargos. Bom, diante das circunstâncias, decidimos achar o local onde iríamos ficar e tratar de descansar, já que era isso que também precisávamos. No fim da tarde fui a Internet tratar de ter notícias gerais, checar banco, fazer telefonemas... Refeição light no camper, um dos segredos para uma melhor adaptação às alturas. Percorremos hoje 192 km.
 Chegando na montanha, vestida para a selva "Paro" dos professores em Cuzco
Dia 12/Julho/2007 - Quinta Em Cuzco estávamos bem instaladas, num lugar onde o carro estaria seguro durante nossas andanças pela cidade e plugadas em água e energia externa, além de sermos policiadas por 3 belos cachorros; um pastor alemao, um labrador mestiço e um rothweiler. Dormiam em volta do carro! Depois de um banho e café da manha, de táxi fomos até a Plaza de Armas e começamos nossa peregrinação; câmbio, compra do Boleto Turístico que dá direito a entrada em vários museus e sítios arqueológicos, almoço e começo das visitas. Digo começo porque é tanta coisa por ver que precisaríamos de uma semana para cumprir, mas pra mim, o que mais valeu no dia de hoje foi o Museu de Arte Pré Colombiana e andar por todas aquelas ruelinhas do centro histórico. Percorremos a pé um bocado de kms.
 Plaza de Armas em Cuzco Ruelas de Cuzco
Dia 13/Julho/2007 - Sexta Mais um dia em Cuzco e pela manhã tratamos de organizar a vida da Pri trocando seus Travellers Checks e comprando a passagem de volta pro Brasil. Almoçamos novamente na Plaza de Armas, lugar agradável e com muitas alternativas para todos os gostos e bolsos. A tarde continuamos a bater perna pela cidade e dos lugares visitados, o Museu Inka foi meu predileto. Já de noite, voltando a pé do centro, paramos num mercado de “artesania” e fomos assistir a um show folclórico que o tal ingresso dava direito. As danças e ritmos me pareceram bastante “primitivos”. Muito do que vimos na apresentação, tivemos a chance de ver nas comemorações pelos vilarejos onde passávamos. Outro dia gastando sola de sapato.
 Danças típicas Artesania
Dia 14/Julho/2007 – Sábado Cai da cama. Pretendíamos sair cedo, mas não precisava ser tão cedo, Luciana! No fim, descobri um vazamento de suco e leite no armário de mantimentos e dale função limpeza. Pela manhã continuamos visitação pela cidade. Almoçamos “chicharron, um prato popular com carne de porco frita acompanhado de batata assada e milho, só que o grão é tamanho gigante. Para acompanhar, cerveja “quente”; quero dizer, as bebidas em geral não vêm resfriadas, pois geladas elas já estão naturalmente na temperatura ambiente. Passamos no super para abastecer-nos e de volta ao camper tratamos de organizar as coisas e zarparmos rumo ao Vale Sagrado, nosso próximo destino. A primeira parada foi nas ruínas de Saqsayhuaman, estrategicamente erguida sobre uma colina de onde se vê toda a cidade e onde acontece todo 24 de junho a festa de Inti Raymi em comemoração ao solstício de inverno, tradição Inka. Perdemos esta! De lá seguimos para Pisac, onde pernoitamos no estacionamento de um restaurante a beira do Rio Urubamba. Noite super estrelada! Percorremos hoje 136 km.
 Ruínas de Saqsayhuaman
Dia 15/Julho/2007 - Domingo As 6h fomos acordadas pelo Pierre, filho da dona do restaurante. Garoto de uns 13 anos, muito esperto e falante, queria nos levar as ruínas ao redor, mas nossa programação era outra neste momento. Queríamos visitar o vilarejo e uma das feiras artesanais mais populares no vale. Mulheres as compras, oba! O vale estava em festa por la Virgen Del Carmem. Por onde passávamos víamos danças típicas e comemorações. São 3 ou 4 dias consecutivos sem trégua! Muitos gringos por todos lados! Almoçamos no restaurante onde estava nosso carro. Truta com arroz, batata frita e salada. Experimentamos a variação de “cores” da Inka Cola: amarela (?) e preta, como a Coca Cola. O rapaz que nos serviu tinha 16 anos e nos deu outro tanto de dicas e explicações. Garotada interessada e culta no geral! Bom, ainda hoje tínhamos de chegar a Ollantaytambo, onde deixaríamos o carro e pegaríamos o trem para Águas Calientes, para então subir a Machu Picchu. Seguimos viagem pelo vale passando por Calca, Yucay, Tarabamba e Urubamba. Próximo à estação do trem encontramos um estacionamento. Preparamos o carro para ficar só, fizemos nossas mochilas e fomos para a fila com nossas passagens e... sem saber ainda onde iríamos dormir hoje. O operador de quem compramos nosso pacote ainda não tinha nos passado o nome do hotel e enquanto eu tentava falar com ele por telefone, a Pri esbravejava do outro lado. Moral, não ouvia o operador e continuávamos sem saber onde ficaríamos. Enfim, tudo se resolve e assim foi! Percorremos hoje uns 6 kms a pé, 56 km de carro e mais serra acima de trem.
 Comemorações pelo Vale Sagrado Feira artesanal em Pisac
Dia 16/Julho/2007 – Segunda Dormi que nem uma pedra! Pri disse que teve festa a noite toda. Eu só fui acordar as 4:30 da madruga quando o pessoal do hotel chamou. Banho pra ajudar a acordar, café e o guia Raul Francisco já estava nos esperando na portaria. As 6h estávamos no micro que nos levaria até Machu Picchu. As 6:30h em Machu Picchu, a 2.330m de altitude, vendo o sol nascer de trás das montanhas. Lá, nosso guia levaria também um grupo de argentinos (rsrsrs). Seguimos juntos começando a visita pelas “andenerias” (patamares agrícolas), para depois ir descendo e entrar na cidade com suas praças, bairros, torres de vigilância, observatórios, cemitérios, relógio solar... Redescoberta em 1911 pelo arqueólogo americano Hiram Binghan, depois de abandonada durante o período de dominação espanhola, há mais de uma explicação para sua existência: alguns especialistas defendem que foi uma fortaleza militar; outros acham que fora uma pequena cidade ou mesmo um monastério para abrigar sacerdotes. Seja o que for, qualquer coisa que eu diga para tentar descrever este lugar seria pouco, tamanho grau de desenvolvimento em local tão inacessível e de beleza impar!!! Mais uma vez me surpreendo com meu celular tocando em plena “cidade perdida”. Isto é incrível! Além de aparelho celular, é também calculadora para as horas de câmbio e compras, relógio local e mundial, tradutor... por isso costuma estar ligado. Descemos para Águas Calientes novamente e pegamos nosso trem de volta a Ollantaytambo. Na estação, percebíamos uma certa movimentação de policiais, ainda reflexo dos “paros” que continuavam acontecendo no país. Sem maiores problemas! Em Ollantaytambo, depois de verificar que estava tudo ok com o carro, “meu mundo”, ainda tivemos pique para ir jantar na praça e aqui a conversa foi longa com os donos do restaurante, gente local, e mais um casal de argentinos que mora em Bariloche. Foi ótimo! Subimos e descemos muitos degraus hoje, além da subida e descida de micro a Machu Picchu e da volta de trem a Ollantaytambo.
 Las andenerias (patamares agrícolas) A "cidade perdida", Machu Picchu
Dia 17/Julho/2007 – Terça Acordamos no estacionamento, tomamos café e fomos para a vila. Descubro que o wc químico do camper esta vazando, que mer... literalmente! Tratamos de esvaziá-lo num banheiro público e quando nos demos conta, estávamos paradas ao lado das ruínas que queríamos visitar. E lá fomos nós degraus acima! Ollantaytambo foi um importante centro militar, religioso e agrícola durante o império Inca e a região, que nunca deixou de ser habitada desde sua fundação no século XIII, exibe os restos de uma maciça fortaleza e é um exemplo do estilo Inca de planejamento urbano baseado em “canchas” (quadras), com um templo que permaneceu incompleto, pois estava sendo erguido quando os espanhóis chegaram. Ali aconteceu uma das poucas batalhas em que os incas derrotaram os invasores. Quando os espanhóis chegaram, o império Inca já estava enfraquecido por uma guerra civil entre dois irmãos pelo poder. Isso os colocou em situação desvantajosa diante dos invasores. Seguimos viagem pelo Vale Sagrado voltando via Chinchero, onde acontece mais uma feira importante do vale, tendo como paisagem as serras de Vilcabamba e Urubamba, com seus picos nevados. No caminho visitamos as ruínas do Moray, onde acredita-se ter sido algum tipo de “centro de estudos agrícolas”, apresentando diversos micro climas dependendo da profundidade de seus degraus. Também visitamos as Salinas de Maras; são mais de 3000 tanques naturais de sal que se espalham pelas encostas formando uma impressionante visão. Dizem ser tão antigas quanto o império Inca e brotam de um pequeno olho d’água que surge da montanha. Pensávamos dormir nas cercanias de Saqsayhuaman para amanhã serguir nosso roteiro pelas ruínas, mas entre outros percalços, nosso wc novamente nos prega uma peça e quando abrimos o banheiro, parecia uma bomba atômica com o vazamento do produto que é utilizado no tanque de dejetos. Decidimos voltar ao local onde ficamos durante nossa estadia em Cuzco, com água, luz e banheiro privativo, e tratar de colocar as coisas em ordem antes de seguir viagem. Assim foi! Percorremos hoje 176 km.
 Praça em Ollantaytambo Ruínas de Moray
Dia 18/Julho/2007 - Quarta Acordamos um pouco mais tarde que o habitual. Geral no banheiro do camper! À noite deixei o tapete do banheiro do lado de fora do carro e não é que Sacsa, a pastora alemã, tratou de fazer um novo acabamento, roendo e arredondando cada canto do tapete. Bela artesã! Com as coisas já mais ajeitadas, seguimos nossa visitação as ruínas ao redor de Cuzco. Kenko foi a primeira delas e é um afloramento rochoso natural que os Incas cobriram de intervenções simbólicas. Acredita-se ter sido um templo de adoração a Pacha Mama (Mãe Terra). Puka Pukara foi a próxima e é formada por escadarias, passagens, torres e guaritas que faziam parte do sistema de defesa de Cuzco, uma espécie de alfândega para controle de saída e entrada da cidade. Seu nome significa “fortaleza vermelha”. A seguinte foi Tampumachay, conhecida com as termas dos incas, sua estrutura de pedra permite avistar quedas d’água cristalinas vindas dos mananciais que abasteciam a Cuzco incaica; acredita-se que aqui cultuava-se o elemento água. Terminado o circuito principal dos sítios e a caminho do Lago Titicaca, nosso próximo destino, paramos nas ruínas de Tipon, imponente complexo arquitetônico, mostra um conjunto de terraços agrícolas, largas “endenerias” e canais lavrados na pedra para irrigação. Paramos para almoçar na região, que é famosa pelo “cuy ao horno”, espécie de “porquinho da índia” temperado com "aji" e outras ervas. Eu não estava bem e mal pude aproveitar a aventura gastronômica. Seguimos nosso destino. Pri foi dirigindo até Sicuani. Tenho febre de e dor de garganta. Será resultado da maratona ou de intoxicação pelo produto químico do wc? Vetado o uso do wc até segunda ordem! Xixis noturnos só na bacia! Que situação! Percorremos hoje 120 km.
 Virarejo de Chinchero Salina de Maras
Dia 19/Julho/2007 – Quinta Saímos do posto onde pernoitamos de café tomado e “desabastecidas”. Seguimos para Puno, as margens do Titicaca, mas no meio do caminho outra manifestação fechava a estrada. O motivo seguia sendo o mesmo: protesto dos professores. Na mesma situação encontramos uma caravana de 8 carros do Brasil. Todos 4x4. Nos apresentamos e trocamos algumas figurinhas e logo veio a idéia e o convite por parte deles: vamos achar uma alternativa por terra? Vocês querem vir com a gente? Mal sabem que estavam oferecendo banana pra macaco. E lá fomos nós cruzando a linha do trem, cortando pasto, passando valetas, atravessando um rio e bordeando lagoas até achar saída no asfalto novamente. Valeu pessoal! Já em Puno, tratamos de fechar nosso passeio de amanhã e saímos para exploração local. Almoçamos “ceviche”, o mais famoso prato peruano; uma espécie de picadinho de pescado marinado em sumo de limão, misturado com muita cebola e uma boa pitada de pimenta, coentro e outros cheiros-verdes. O prato é servido cru e guarnecido normalmente com milho, batata doce e abacate. Para acompanhar “pisco sour”, o tradicional drinque nacional feito com destilado de uva branca, suco de limão, clara de ovo, açúcar e pó de canela. Ainda de sobremesa, panqueca de quínua (uma espécie de cereal) com doce de leite. Huuum, bom! Depois de acomodarmos o carro num estacionamento e circularmos um pouco a pé, fui resolver algumas coisas pela Internet e Pri foi às compras. Voltei cedo pra “casa”, pois continuava a febre e a dor de garganta. Percorremos hoje 253 km.
 Caravana de brasileiros driblando o "paro" Degustando o "Ceviche"
Dia 20/Julho/2007 – Sexta Passaram para nos buscar as 6:40h. Iríamos para um passeio de barco pelo Lago Titicaca. No grupo espanhóis, franceses e ingleses, além de nós, brasileiras. O lago está localizado a 3.809m de altitude, considerado o lago navegável mais alto do mundo, com uma profundidade máxima de 274m e temperatura media da água de 9º C. Mede 60 km de largura por 165 km de comprimento, totalizando uma área aproximada de 8.560 km2. Sua cor varia entre o verde esmeralda, nas partes mais rasas, e o azul anil, nas mais profundas. Começamos a visita pelas ilhas flutuantes dos Uros, cerca de 25 minutos de Puno. Habitadas hoje por seus descendentes, os aimarás, dizem que na falta de terras este povo construiu suas próprias ilhas que são feitas de “totora” tipo de junco que nasce no lago. Eles trabalham este material de tal forma que as ilhas adquirem a espessura aproximada de 1,50m. Sobre elas constroem suas casas, também de “totora” assim como os barcos e tudo o mais. Há cerca de 40 ilhas e cada uma abriga até 10 famílias que vivem da pesca e da caça de aves silvestres, além do turismo hoje em dia. Seguimos para Taquile, ilha localizada a 35 km a leste de Puno. Habitada há pelo menos 10 mil anos, o que se comprova pela presença de algumas ruínas incaicas e pré-incaicas, hoje é habitada pelos quíchuas, que ainda vivem sem eletricidade, e se dedicam à pesca e a tecelagem. Aqui, os homens casados usam um gorro vermelho e os solteiros vermelho e branco. Assim, não há duvida de quem está disponível! Almoçamos nesta ilha. De entrada uma sopa inca de verduras e legumes, pão e molhinho apimentado; depois peixe rey (da região) frito, com arroz, papas fritas e salada. Na volta fui na popa do barco tentando me proteger um pouco do vento, tomando um solzinho e curtindo a navegação e a paisagem. Em terra novamente, pedimos para nos deixarem na Plaza de Armas, imponente, com sua catedral e casarões coloniais. Voltamos a pé pelas ruelas antigas da cidade. E para tentar melhorar a dor de garganta que insiste em ficar, sopa para o jantar. Percorremos hoje uns 100 km de barco e outro tanto a pé pelas ilhas e pela cidade.
 Ilha dos Uros, feita de "totora" Ilha Taquile
Dia 21/Julho/2007 – Sábado Tivemos de levantar acampamento muito cedo hoje, pois se armava uma feira na porta do estacionamento onde estávamos. Seguimos rumo Arequipa, de onde Pri tomaria seu avião de volta. No caminho abastecemos com diesel e água, compramos empanadas para o café e... dois policiais nos abordaram: vocês estão na contra mão! Num transito caótico como aquele saíamos de uma ruelinha que nos indicaram, para sair da cidade e... ok! Então... tentativa daqui... tentativa dali... acabaram nos liberando quando viram que nada aconteceria. Seguimos nosso rumo. No caminho paramos numa feira local. A paisagem continua árida, pobre e desoladora. Estamos viajando pelo país no período da seca, o que faz a diferença em relação à paisagem. Na chegada em Arequipa um “deserto” nos surpreende. E começamos a baixar de 3.800m de altitude para os 2.335m. Ao redor vales completamente áridos. Mas na chegada a Plaza de Armas o cenário muda; muita beleza e suntuosidade. Aos pés do vulcão Misti, é a segunda mais importante cidade do Peru, conhecida como “cidade branca” pela cor do “sillar”, pedra vulcânica empregada na construção das suas imponentes igrejas e casarões. Encontramos um estacionamento a uma quadra da praça. Assim, pudemos circular a vontade pelo centro historico e ainda teríamos onde pernoitar. Em clima de despedida, almoçamos uma “parrillada” no restaurante Paris. E no fim da tarde, enquanto eu fazia Internet, Pri arrumava suas coisas para zarpar amanhã. Percorremos hoje 301 km.
 A caminho de Arequipa... Plaza de Armas de Arequipa
Dia 22/Julho/2007 – Domingo Manhã acabando de ajeitar as coisas, banho e aeroporto. Pri volta pro Brasil. No aeroporto, de frente ao Misti, tomamos uma cervejinha e beliscamos algo como despedida. De repente lembramos que nossa casa estava ali no estacionamento e repetimos a despedida com o Atlas. Aqui começa nova fase. Em carreira solo novamente! Readaptando o ritmo e me reorganizando. Volto ao estacionamento no centro e fico por aqui mais uma noite. Hoje pouco andei.
 O Vulcão Misti desde Arequipa
Dia 23/Julho/2007 – Segunda Acordo super gripada ! Aproveito para botar a casa em ordem, levar roupa pra lavar, fazer banco, Internet... e tentando me cuidar um pouco. Desde os preparativos finais para a saída entrei num ritmo alucinante e agora é hora de desacelerar. Almoço uma comida típica criolla: Rocoto Relleno, que vem a ser pimentão vermelho recheado com carne picada e picante, queijo, "mani", passas e ovos acompanhado de batata cozida. Huuum! No final da tarde fui ao Museu Santuários Andinos onde se encontra “Juanita”, a menina do vulcão Ampato. Descoberta em setembro de 1995, foi oferecida ao Apu (montanha) Ampato pelos sacerdotes incas de então e posta a descoberto pela erupção do Vulcão Sabancaya. Por pelo menos 550 anos esteve congelada, motivo pelo qual se conserva tão bem, inclusive com seus órgãos internos hidratados. É considerada uma “jóia rara” para os cientistas, que continuam os estudos em seu corpo e no material encontrado junto dela, incluindo seu cordão umbilical. Percorri a pé hoje o mínimo necessário para tentar me recompor.
Dia 24/Julho/2007 - Terça Acordei e segui ajeitando as coisas e a mim. Cuidei das unhas, banho, peguei roupa lavada e mais uma vez Internet. Perto da hora do almoço estava pronta para zarpar novamente. Segui rumo Yarabamba, Quequeña, Churajón, Santuário de Chapi, Mollebaya, Socobaya e Sabandia, região sul e sudeste de Arequipa, extremamente árida como todo o entorno que recorri desta cidade. Aqui se encontram restos arqueológicos da cultura Churajón, conquistada pelos Incas, e uma grande concentraçao de “terrazas” pré-incaicas, além de casarios coloniais e dos petroglifos em Quequeña, o lugar mais pitoresco desta rota. Mas para visitá-los, tive de me safar do um toro e seu harém. Com o trauma que tenho de infância, me ponho em pânico nessas horas e meu carro, à distância, representava minha salvação! Só Deus sabe! rsrsrs Terminei o dia dormindo na praça de Chigata, “pueblito” aos pés do Vulcão Misti. Percorri hoje 148 km.
No vale as "terrazas" e o verde... mas ao redor, aridez total.
Dia 25/Julho/2007 - Quarta Dia daqueles pra não sair da cama! Acordei antes das 7h, mas o frio não me deixava levantar. ...e o gado passando em volta do carro... Como é bom estar aqui dentro! Que efeito psicológico não faz uma parede de 1 cm! Pé na estrada e com a luz do dia pude ver como o caminho era lindo! Ontem cheguei de noite. Desci para fotografar a paisagem e encostando no carro levei um baita choque e paft! máquina fotográfica ao chão. Tilt! Liga, mas não funciona. Desço a serra vendo uma foto em cada curva. Volto ao estacionamento de Arequipa para tentar conserto e encontro uma outra pick-up Ford com um camper em cima também. A placa era da Argentina, mas o casal da Suíça. Na Plaza de Armas garimpo onde fazer o conserto. Acho, mas só fica pronto no final da tarde. Vou almoçar e a Internet novamente, aproveitando que o acesso 'e facil! Não querendo dormir outra noite em Arequipa, saí rumo a Chivay, próxima zona a ser visitada, passando pela Reserva Nacional Salinas y Aguada Blanca, mas acabei pegando outro trecho de serra no escuro, passando a mais de 4000m de altitude. Que pena! O carro sente a altitude também e a partir dos 3000m já começa a se desempenhar diferente, pedindo mais combustível. E eu, com toda a congestão que tinha por dentro, sentia as coisas irem se comprimindo... Percorri hoje 190 km.
 A paisagem da minha janela quando amanheci em Chivay
Dia 26/Julho/2007 – Quinta Em Chivay, a 3633m de altitude, muito frio durante a noite! Aqui é o ponto de partida para os passeios pelo vale e ao cânion de Colca. Paro pra pegar informações com a “Policia Carretera” e se oferecem para me acompanhar e mostrar o caminho. Conhecer o Peru escoltada, que tal! Segui sozinha rumo ao cânion passando por Yanque, onde visitei um interessante museu com a historia do vale; Achoma; Maca, onde me deparei com uma festa pelos 182 anos do município com direito a banda, palanque, discurso, desfile, presença do prefeito e do governador e tudo o mais; Pinchollo, onde não entrei porque o carro não cabia nas ruelas; e indo dormir em Cabanaconde, depois de uma parada no tal cânion de onde se avista o vôo dos condores. Imponentes como são, podem atingir até 3,30m de envergadura e pesar até 11kg. Habitam os altos Andes e podem ser vistos desde a Venezuela até a Terra do Fogo. Aqui, o melhor horário para avistá-los é pela manha, entre 8 e 10h. Então, volto amanhã! Dia aí... mais ou menos... com a bruxa ainda as soltas... Air Lift exigindo atenção, garrafa d’água vazando dentro do camper, eu me readaptando as alturas e ainda mal da garganta... Encontro os suíços com o camper novamente. Percorri hoje 114 km.
O Vale de Colca... e sua gente em festa.
Dia 27/Julho/2007 – Sexta Acordei com a proposta de ir tomar café da manhã no cânion e ver o vôo dos condores. As 7h já estava lá. Um frio e um vento que não me deixavam sair do carro. Começava a melhorar da garganta e não queria abusar. Estacionada o mais próximo possível e munida de binóculos, tratei de curtir o visual. Lindo de se ver! Tão lindo que aí me “quedei” durante todo o dia, mesmo depois das aves e dos turistas já não estarem mais. Passei o dia abrigada na minha aconchegante “casa-rodante”, admirando o mundo lá fora pela janela da sala, tomando chocolate quente e aproveitando para por a escrita em dia. Me sentia a própria Mario Vargas Llosa, escritor peruano que definiu essa garganta de 3400m de profundidade como o “vale das maravilhas”. No meio da tarde um “insight” me fez resolver um probleminha mecânico que me incomodava. Mais animada e depois de quase um dia de folga por aqui, resolvi pegar estrada e seguir de volta pelo outro lado do cânion atravessando por uma única ponte existente entre Maca e Lari. Desce... desce... desce... bordeando a montanha e lá no fundo a passagem pela pequena ponte. Sobe... sobe... sobe... e sigo pela estradinha que do lado de lá é um pouco mais precária, mas com uma paisagem mais “verde”. Chego até Coporaque já de noite de novo e durmo em mais uma praça. Aqui também tinha banda. Começavam os festejos pelo dia da independência do Peru. Percorri hoje 56 km.
 Em cada vilarejo um portal com oferendas ...e todas as tradições presentes.
Dia 28/Julho/2007 – Sábado Dia da Independência! Acordo com os alto-falantes da praça dando as boas vindas e anunciando a data, além das obrigações reservadas a todos como colocar a bandeira nacional em suas casas, baixo penalidade que será cobrada na segunda-feira, depois de revista feita pelos oficiais no dia de hoje. Que tal!? Bom, trato de levantar, tomar café e zarpar antes de estar no meio da banda novamente. Passo por Chivay para abastecimento e sigo rumo norte. No caminho indicação para o Nevado Mismi, outro importante vulcão. O desgelo de suas neves da origem a 2 dos afluentes do Rio Amazonas: o Chalhuanca e o Llapa. Sigo montanha acima por um caminho estreito e pedregoso que no topo se abre para um deserto de onde se vê o pico nevado. Como não poderia deixar de ser há um belo “apacheta”, que são montículos de pedra encontrados por toda parte, erguidos pelos viajantes como oferenda aos “Apus” (montanhas), segundo antiga crença inca. Sigo o caminho até onde posso acreditando ter uma saída, mas a condição da estrada começa a piorar e decido voltar. Não encontro viva alma pelo caminho, a não ser uma senhora campesina que não falava espanhol, somente seu dialeto que deve ser quíchua ou aimará. De volta a estrada principal sigo passando por Tuti; Callalli, onde se avistam formações geológicas em forma de castelos conhecidos como “castelos encantados”; Sibayo e chegando para pernoite em Yauri, depois de passar por uma marcação de 4.721m de altitude e de ver uma lua quase cheia nascer em meio à paisagem desértica. Bárbaro! Em meio às comemorações que aconteciam por todos os lados, pergunto a uma viatura da polícia onde poderia pernoitar. Depois de me perguntarem de que país vinha, me abrem as portas da “comissaria” para uma tranqüila e segura noite “encarcerada”. Eu e o carro no pátio dos detentos, que por sorte não havia nenhum! Percorri hoje 276 km.
 Os "apachetas", o Mismi ao fundo e o Atlas ...fauna e flora no caminho.
Dia 29/Julho/2007 – Domingo Noite muito fria! Depois dos afazeres da manhã, peço “alforria” e os portões se abrem. Livre novamente, pego estrada rumo a Cuzco, capital do Império Inca e pelo que vejo da minha estadia pelo Peru também. Teria ainda outra opção, que seria seguir por estrada de terra um trecho de 400 km até Abancay, mas eu, o carro e o camper estamos de poeira até as entranhas e precisando de um descanso com banho a todos e água em abundância. Preferimos só 80 km em terra e um pouco de asfalto hoje. Chegando a Cuzco, fomos para nosso oásis, o parque do Club Hotel. Aproveito pra rever os 3 “perros”: Shana, Rambo e Sasha, que ainda não deu a luz. São lindos e queridos! Passam o dia e a noite ao redor do carro enquanto estou aí. Shana chora para que eu brinque de jogar pedra com ela; Sasha já não pode mais subir no estribo de tão gorda que está e Rambo, o rothweiler, vez por outra tenta subir no carro, além de fugir com o pano e a bacia, fazendo balançar tudo. Me divirto! Pela Internet e pelo celular dia de intensa comunicação; Nina, Vera, Karen, mãe, Pri, Alice... Chegam em boa hora! E olha a dor de garganta ainda aí! Ontem, enquanto lavavam o carro, um policial puxou conversa e disse que a gripe, na crença deles, gente da montanha, pode ser um sinal de purificação. Acho que eu devo estar podre então! Já são 12 dias assim! Percorri hoje 219 km.
 No meu "oasis" e base de apoio em Cuzco ...com meus companheiros inseparáveis.
Dia 30/Julho/2007 – Segunda Dia de descanso e arrumação! Todos os cabos de panela se soltaram com a trepidação nas estradas de terra; trato de achar os parafusos e arrumar. Continuo com o astral oscilante. Não entendo porque se estou onde quero e fazendo o que mais gostaria. Será TPM?! Dou um tempo a mim pra tentar entender. Faz parte de todo caminho. Nem tudo são flores e como escrevi no último boletim informativo: si hallas um camino sin tropiezos, quizás no te lleve a ninguna parte. A boa noticia do dia é que o amigo Bira, aquele que quebrou a bacia as vésperas do casamento, já está andando de muletas! Sigo o dia escrevendo, colocando meu diário em dia e depois o “diário de bordo”. Não saio do camper curtindo o aconchego e a paz do meu canto. Chego a me abstrair de onde estou e isto costuma acontecer com freqüência em qualquer lugar. É incrível! Depois de escolher o lugar de pernoite, entro no camper e para não ficar de vitrine na escuridão de fora e com as luzes de dentro acesas, fecho as cortinas e muitas vezes me isolo por completo do contexto externo. Chego a esquecer onde estou até dar bom dia ao dia na manhã seguinte. Pequeno como é, tenho tudo o que preciso aqui dentro: um micro banheiro, mas com uma bela ducha aquecida a gás e pressurizada, uma pequena pia, além de um wc químico, que vez por outra me prega alguma peça, mas que continua sendo de muita utilidade nas noites frias; uma cozinha com fogão de 3 bocas, pia inox, uma geladeira com congelador tamanho frigobar que funciona a gás, na bateria ou plugada em rede externa 110/220 e armários para louça e mantimentos; um sofá em U com janela panorâmica e mesa que vira apoio para a cozinha ou cama para visitas; armários para roupa e uma cama de casal fixa acima da cabine com roupa de cama limpinha e cheirosa, quentinhos cobertores e fofos travesseiros. Hum! Com o frio que tá fazendo agora já me da vontade de me enfiar nela!!! Não tenho TV por enquanto, pois pra mim não é primeiríssima necessidade, mas tenho um som instalado que gosto de ouvir quando me deito. Com isso tô feliz! Se quero mais, tenho na minha casa em Floripa. Hoje não percorri nem um passo além do interior do camper.
 Kit a esquerda, cama ao fundo, sala a direita... banheiro, que também fica na entrada a direita
Dia 31/Julho/2007 – Terça Devagar vou melhorando, mas ainda não estou para “grandes” decisões. Sigo pondo a escrita em dia e pensando em tudo que já vi até aqui. Alguns detalhes me passam quando trato de escrever e me vem à memória quando revejo as fotos e leio as anotações. Por exemplo: nas construções incaicas, quando os encaixes das pedras são perfeitos a ponto de não entrar um alfinete, costumam ser de templos e lugares sagrados; quando são com encaixes mais rústicos ou com massa entre elas, são de vivendas e habitações. Também é incrível o número de “andenerias”, aqueles degraus para cultivo nas montanhas, que se encontra em todo Peru e muitas vezes em inclinações assombrosas! E os sistemas hidráulicos para irrigação e uso doméstico entalhados na pedra. E assim seguem os exemplos... Hoje coloco no site o primeiro trecho do “diário de bordo”. Fiquei bem contente! Vinha me cobrando, mas ainda não tinha conseguido administrar o tempo para isso de forma eficiente. Também aqui a necessidade vai formando a rotina de viagem e sigo me adaptando. Mais um dia sem percorrer nada além das dependências do hotel.
 Detalhes das construções incaicas: vivendas ...e templos
Dia 01/Agosto/2007 – Quarta Hoje, além de progredir mais um pouco no “diário de bordo” volto aos afazeres domésticos como: fazer supermercado, levar o wc químico pra arrumar, dar uma geral na cabine do carro que era só pó... E não é que consigo uma oficina que mexa com fibra bem em frente ao hotel! Com isso pretendo colocar de volta em uso o tal wc químico que estava em convalescença até segunda ordem; ele é um elemento importante para o conforto a bordo! Que alegria!!! O acabamento ficou de última, mas parece que o problema de vazamento se resolveu. Tomara! Mas só o tempo dirá... Na escrita, continuo me lembrando de mais detalhes: quando vejo o colorido das roupas típicas a primeira coisa que me vem à cabeça é de que usam assim para trazer um pouco de cor a vida, uma vez que a paisagem no Peru costuma ser meio “monocromática” muitas vezes e bastante árida em muitas regiões, mas na verdade este costume foi implantado com a colonização espanhola e “muito bem aceita” pela população local, que antes tingiam suas roupas com cores mais sóbrias como tons de marrom, bege, preto e algumas variações do vermelho, como se vê nos tecidos encontrados nas escavações. Quanto à “monocromia” que falava, nas montanhas há muito cultivo, é certo, mas a variação fica entre o marrom da terra, o cinza das montanhas rochosas e o verde nos vales; as casas são todas feitas de adobe, que continua sendo da mesma cor da terra, uma vez que é feito deste material; no lado oriental da cordilheira quase não há neve a não ser em algum pico que se vê ao longe. No litoral a aridez é grande e são vastas as extensões de areia e arbustos secos, com algum verde em alguns vales. É verdade que estou conhecendo este país na época da seca, talvez a coisa mude de figura de novembro a maio, época das chuvas. De qualquer forma é de um relevo muito lindo e imponente, principalmente na região dos Andes e das montanhas nevadas, que tem um céu muito azul, picos e montanhas brancos, geleiras, lagos turquesas, azuis e negros e uma altitude que chega a 6.768m no nevado Huascarán, o pico mais alto do Peru, localizado na Cordillera Blanca. Eu e o Atlas chegamos a 5.080m! À noite ligo para meu pai por seu aniversário! Família reunida comemorando. Aproveito pra dar um alô comunitário! Com o carro não percorri nada, mas perambulei pelos arredores do hotel resolvendo as coisas.
 Monocromia e o contraste Laguna Paron a 4170m nas montanhas nevadas
Dia 02/Agosto/2007 – Quinta Dá pra acreditar que sigo colocando a escrita em dia!!! Não quero mais deixar que isso aconteça, mesmo quando estiver com amigos e visitas a bordo. Uma horinha diária e isso não acontece. Preciso me doutrinar entre outras pequenas obrigações! Hoje me acontece daquelas situações “previsíveis”. Estive por mais ou menos duas horas trabalhando na atualização do site pela Internet quando, PUF!, por algum motivo desconhecido ou um aperto errado de tecla, tudo desaparece. Quase tive um colapso, mas respirei fundo, contei varias vezes até 10 e comecei tudo de novo. Agora, a cada dia atualizado salvo. Vivendo e reaprendendo! Nestes dias em que fico no camper acabo cozinhando, mas com o pensamento em todas as opções de pratos típicos que existem e que tenho experimentado. A base da alimentação no Peru é a batata, em suas muitas variações de tipos e formas de preparo; assim como o milho, incluindo um com o grão muito grande e um roxo do qual se faz o “maiz morado”, aquela bebida que Pri e eu tomamos na “parrilla de la esquinita” em Puerto Maldonado; uma vasta seleção de cereais incluindo o trigo, a “quínua”, a cevada, o feijão... ; e a carne de rés (boi), pollo (frango), pez (peixe, entre eles a truta, a pescada branca, além de frutos do mar), chancho (porco) e nas montanhas também a carne de alpaca e llama. É uma alimentação rica e substanciosa! Pedindo um menu do dia, normalmente você é servido de uma salada de entrada, seguido de uma sopa “forte” e o prato principal, que vem com algum tipo de carne, acompanhada de batata e arroz ou feijão ou mandioca ou... Não é comum comerem com faca, somente garfo e colher, ou seja, usa-se as mãos tambem. No hotel foi dia de festa à noite; despedida de um grupo escolar com jantar, apresentação de danças típicas e queima de fogos. Me convidaram para assistir e vez por outra, enquanto trabalhava no computador até tarde da noite na sala ao lado do salão de festas, dava uma escapada e assistia uma apresentação. Também me pediram para mudar o carro de lugar no parque pela queima de fogos. Esperei tudo terminar e voltei para meu confortável canto debaixo dos pinheiros. Dia com mais progressos! Continuei pelas dependências do hotel e aproveitando para “estabilizar” as coisas.
 Variedade de batatas e cereais Menu do dia
Dia 03/Agosto/2007 – Sexta Hoje acordei limpando! Baixou a “Dita” ou minha herança materna, não sei bem qual?! Vez do camper começando pelo banheiro, limpeza das janelas, geladeira, chão, lavei panos... e por fim, fui eu tomar banho! Depois do banho, cortei a unha dos pés e fiz a das mãos. Hoje, passou pela frente, limpei!!! A sorte dos cachorros é que eles ficaram presos. Senti falta! Como não comemorei o primeiro mês de viagem há dois dias atrás, hoje decidi fazê-lo com macarronada e vinho tinto. Olha meu lado italiano aparecendo aí! Também aproveitei para estrear minhas pantufas. Não agüento mais ter os pés gelados de tanta friagem. Resolveram! Ou o vinho ajudou! No fim da tarde fiz Internet, que além de me conectar com o mundo trazendo e levando informações e emoções, organiza minha vida bancaria. De volta ao camper, ainda organizei papeis e bilhetinhos que estavam espalhados e guardados por todos os lados sem destino certo. A novidade do dia ficou por conta da chegada de visinhos num caminhão 6x6 com um casal e um pit bull. Placa da Suíça. Nome do caminhão: Robusto, coisa que parece mesmo ser! E eu ao lado fiquei me sentindo uma pulguinha! Mais um dia sem sair das redondezas do camper.
 O Robusto 6x6, e olha eu lá atrás pequenininha...
Dia 04/Agosto/2007 – Sábado Bom, parece que chegou a hora de zarpar novamente.Vamos ver como encaro o mundo lá fora... Recoloquei tudo em seus devidos lugares para voltar e andar e fui tratando de finalizar cada coisa. Entre elas, passar pelo banheiro para zerar o wc químico e minhas reservas e... de repente, quase cai a porta do banheiro. Era Shana, a postora-alemã que foi solta e me descobre sentada no trono. Levei um baita susto e quando sai quase fui eu para o chão com os festejos que ela fez. Bom, tratei de me despedir dela brincando um pouco de jogar pedra, seu passatempo predileto. Na recepção, acertando as contas, soube que Sasha tinha dado a luz a 5 filhotinhos nesta última noite. Tratei de vê-la também antes de ir embora. São 5 “rambinhos” iguais ao pai. Na saída abasteço o carro, passo na mesma oficina que arrumou o wc químico para um pequeno reparo num dos pés hidráulicos do camper que levou um solavanco em algum momento e pé na estrada rumo a Abancay. Que diferença faz a presença da água na paisagem. Tudo começa a ficar mais verde, com mais vida... Sigo pelo Valle de Curahuasi tendo o nevado Salcantay como pano de fundo. Lindo! No caminho ainda visito as ruínas de Saywite, onde há uma grande pedra esculpida pelos Incas que dizem ser a “la maqueta del Tahuantinsuyo, o Império Inca. Continuo viagem até o Santuário Ecológico de Ampay, onde pernoitei e tive uma noite de silêncio e escuridão absolutos. Percorri hoje 221 km.
 Valle de Curahuasi La maqueta de Tahuantinsuyo, o Imperio Inca
Dia 05/Agosto/2007 – Domingo Pela manhã, apesar de ser domingo e estar numa área de lazer, tudo fechado. Peguei uma das trilhas próxima à sede do parque e subindo, encontrei uma piscina de água corrente verde transparente e absolutamente gelada! Sabia que continuando esta trilha encontraria um lago encravado na montanha, mas cruzando com um morador local, soube que para chegar a este paraíso teria quase que tocar o céu e aí se desfez meu sonho. Com um guia ou mais alguém era mais provável de enfrentar, mas sozinha preferi pegar o carro e rumar montanha abaixo seguindo meu caminho para Abancay, logo ali, e Andahuaylas, 149 km adiante por um caminho de terra bordejando montanhas mais uma vez. Na chegada peguei um desvio para a Laguna Pacucha, localizada a 3.091m de altitude. Rodeada de pinheiros por terra e de “totoras” por água, reflete um tom azul marinho bem lindo. Me encantei e por aí fiquei me acomodando a beira do lago. Almocei truta com “papas”. No fim da tarde vi o morro ao fundo se avermelhar com o por do sol e aos poucos se apagar. Depois, o descanso merecido. Percorri hoje 169 km.
 Laguna Pacucha... e seus arredores
Dia 06/Agosto/2007 – Segunda Acordei cedo e, de bem com a vida, me pus em “marcha”. Café mirando o amanhecer prateado no lago, mais uma bela cena! E dá para estar de outra forma?! Segui passando por Andahuaylas e de lá não conseguia sair. A cidade estava em obras. Tentei em frente e a policia me fez voltar por estar na contramão; à esquerda as ruas estavam interditadas; e a direita Atlas não cabia. Aceitei a ajuda de um garoto, o Luis, que me guiou até o outro lado da cidade. Ufa! Continuando por estradas de terra, a paisagem segue melhorando, com ares de montanha, mais verde, mais água... Hoje também passei por região desértica, arenosa e com muitos cactos, mas com um belo rio verde desfiladeiro abaixo. Lindo! E é inacreditável que sejam esses os principais caminhos que interligam capitais e importantes cidades pelo interior. De carro já é uma aventura pelas erosões, pedras, subidas e descidas íngremes, além de não haver sinalização nas bifurcações e muitas vezes ser bastante estreito, mas por aqui também circulam ônibus e caminhões; melhor dizendo, treminhões, aqueles com dupla carga engatada. Cruzei com alguns hoje e um destes grandes furou o pneu na minha frente. Como não passam dois ao mesmo tempo, tive de esperá-lo fazer a troca para nos desviarmos e seguirmos. Incrível, mas com boa vontade e podendo se mover, sempre há uma maneira de nos safarmos. Parece coisa do além, providencia divina, sabe! Lembre-se que estamos nos Andes e que normalmente temos um paredão com morro de um lado e um penhasco do outro! Na chegada em Ayacucho dois comandos da “policia carretera” muito próximos um do outro. Sou parada duas vezes, como de costume, sempre curiosos com minha procedência e documentação. Tudo ok, como sempre também! Percorri hoje 264 km.
 Amanhecer a beira do Pacucha Nao passam dois!
Dia 07/Agosto/2007 – Terça Dia em Ayacucho e arredores conhecendo o complexo arqueológico de Wari, localizado no distrito de Quínua, 22 km ao norte, tida como a capital de um importante império andino pertencente à cultura Wari, de 500 a 1.100 d.C., e um dos maiores centros urbanos do antigo Peru. Também estive na “Pampa de la Quínua”, onde ocorreu a Batalha de Ayacucho em 9 de dezembro de 1824, definindo a emancipação do Peru do domínio espanhol, que teve inicio em 1780 com a primeira revolução de Tupac Amaru, no declínio do Império Inca. Hoje estive acompanha de Fernando, um peruano de Trujillo, morador de Lima e a trabalho em Ayacucho. Me passou varias informações locais e gerais de seu país as quais vinha buscando saber e, depois das visitações e de um almoço com comida típica, fomos a casa de uma família de amigos seus que comemoravam o que chamamos de “Festa da Cumeeira”, que vem a ser a comemoração e agradecimento ao mestre de obras pelo acabamento do telhado quando uma casa está em construção. Tinha padrinho, oferenda ao mestre e tudo o mais que a data exige, além de outros tantos amigos, familiares e companheiros de trabalho de Fernando. Foi um bom momento para conviver um pouco mais de perto com a realidade cotidiana local e para intensa troca de informações Brasil x Peru. Valeu! Percorri hoje 82 km.
 Pelas ruínas de Wari ...além das pedras!
Dia 08/Agosto/2007 – Quarta Hoje foi dia de visita ao centro de Ayacucho, capital da “província” (Estado) de mesmo nome. Convertida durante o século XVII em um dos mais importantes ateliês de obras de arte da coroa, hoje é refugio dos artesãos, músicos e dançarinos mais representativos da cultura serrana e a cidade com maior quantidade de igrejas no Peru; são 33 templos coloniais de pedra em diversos estilos arquitetônicos. Fui de táxi para a Plaza de Armas, naquelas motonetas chinesas para até 3 pessoas. Há delas por todo o Peru parecendo até praga, tamanha à quantidade existente, e sendo o meio de transporte mais popular e acessível. Pelo centro, perambulei a pé fazendo um reconhecimento geral, além de visitar a Casa Chacón, antiga casa colonial que hoje abriga o Museu de Arte Popular Joaquin López Antay. Também aproveitei para pegar “dindin” num caixa eletrônico, fazer Internet, tirar xerox, supermercado e almoçar, antes de voltar para o carro e botar o pé na estrada novamente. Abastecidos, Atlas e eu, seguimos rumo a Huanta, onde pernoitamos ao lado de uma escola pública num dos povoados pelo caminho. Percorri hoje 69 km de carro e outro tanto a pé e de táxi.
 Pelo centro e... Obelisco pela Batalha de Ayacucho
Dia 09/Agosto/2007 – Quinta Acordei com as crianças chegando na escola e curiosas com o carro. Uma dizia: vem, vem ver! E a outra respondia: sabe, eu tenho um pouco de medo! Segui rumo Huancavelica, seguindo por um dos caminhos que passam pelo Valle de Huanta. Mais uma vez paisagem árida, cânios, mas o rio estava lá ao fundo novamente. Parei num povoado e me indicaram um caminho mais curto; cruzava pelas pedras de um rio seco e começava a subida, mas nem conto como foi montanha acima; em quase cada curva era necessário fazer manobra para conseguir virar, tamanha a “estreiteza” da “estrada”. Passamos os 4.700m de altitude! Numa bifurcação me enganei e fui dar em Rosário, povoado perdido no meio da serra. De lá acabei por dar carona a uma professora, a Digna, um encanto de pessoa! Conversamos por todo o caminho e quando chegou em seu destino, ainda continuamos a “charlar”. Poderíamos continuar com histórias por todo o dia... Um pouco do que aprendi com ela vai aqui: nas montanhas, as mulheres com flores no “sombrero” (chapéu), e todas usam, são as solteiras, assim como as que usam as roupas mais coloridas; as mulheres também têm o hábito de usar uma saia por cima da outra fazendo sempre aparecer um pedacinho ao menos de cada, além de calça por baixo, e o número de saias é um sinal de sua condição social; quanto mais, melhor condição. Também soube que o êxodo rural no Peru não é tão grande porque a gente tem a terra como uma fonte de sustento garantida e cultivam primeiramente para sua subsistência e depois, com a produção que sobra, usam como uma moeda de troca pelo que não produzem; também se orgulham de suas tradições e as mantém vivas, o que fortalece suas raízes. E pela segunda vez ouço a história de uma tradição no enamoramento de um casal, onde um joga uma pedrinha para o outro e se é devolvida, é sinal de interesse e o outro pode ir em frente; depois disso, se o rapaz rouba uma prenda da moça é sinal de que vai a sua casa pedi-la em casamento... e isso continua até hoje! Percorri hoje 178 km.
 Professora Digna... e seus alunos.
Dia 10/Agosto/2007 – Sexta Pernoitei num posto na entrada de Huancavelica e acordei com alguém do lado de fora dizendo: Que máquina! Es um 3.50, el grande! Que máquina! De quien es? Bom, mesmo sendo tudo isso, marquei hoje uma revisão na Ford, em Lima, para verificar o freio traseiro que vinha apresentando algum probleminha; quando freava mais forte o carro saía rabeando para a esquerda e como vivo pelas montanhas e bordas, era melhor não brincar com isso! E este acabou sendo meu destino de hoje: Lima. E um raro dia só por estradas asfaltadas. É verdade que muitas vezes meio esburacadas, mas nada que já não estivéssemos acostumados no Brasil, tanto o Atlas como eu. Também hoje pegamos os primeiros pingos de chuva no Peru, entre Huancavelica e Huancayo, mas que não passaram muito além disso. Pensei em parar no começo da noite o mais próximo possível de Lima e amanhã sair cedo direto para a concessionária, mas com boa música e disposição, e depois de profundo trabalho mental durante o dia para me fazer entrar numa cidade grande novamente, decido seguir e tentar parar o mais próximo possível da Ford, mesmo sem conhecer Lima, mas com as informações que tenho e se necessário perguntando, já que sou meio loira... O movimento na entrada na cidade era de impressionar, apesar do horário, as 22:30h. Mas era sexta-feira! Que loucura! Vindo da serra fui passando pelos bairros ao redor, sempre pela principal e em direção a Panamericana. Cheguei a parar em 2 “grifos” (postos de gasolina) para me certificar do caminho e não me perder a essa altura do campeonato. Seguia o fluxo, mas nem todos os lugares eram os mais convidativos e simpáticos. Mantinha todos os sentidos bem aguçados para tentar acertar o alvo o mais próximo possível... e não é que consegui! Num certo momento vejo uma placa com o nome do bairro onde teria de me dirigir, La Molina. Entro e me parece ir ficando meio sem movimento. Volto e pergunto em mais um “grifo” e me dizem para seguir por ali mesmo. Volto novamente e passando “o limite das trevas”, me deparo com um mundo muito melhor ao meu redor! E um belo posto de gasolina com todos os serviços necessários e num agradável bairro com ruas planejadas, arborizadas e largas avenidas. É aqui mesmo onde vou ficar por hoje! E me informando do caminho a tomar amanhã, não é que estou a 2 quadras da concessionária!!! Uhauuu, mais certeiro impossível!!! Nota 10 hoje! Quando deito, apesar do cansaço, levo um tempo até desconectar todos os sentidos novamente e acalmar os pensamentos. Percorri hoje 433 km de asfalto!
 Ontem, pelo caminho mais curto... no Valle de Huanta
Dia 11/Agosto/2007 – Sábado Despertador para as 7h, coisa rara pra mim! Costumo acordar cedo sempre, mas com hora marcada e deitando mais tarde que o habitual, preferi não arriscar. Direto pra a oficina. Me sinto em São Paulo! Na Ordem de Serviço, apesar de lerem o documento do carro, não bate nenhuma informação além da km atual. Espero que saibam em que carro estão mexendo e o que estarão fazendo! Aguardo o veredicto e depois de concluído, saio para afazeres triviais enquanto finalizam o trabalho. Nas redondezas consigo tudo o que preciso. Com o carro pronto as 14:30h, deixo-o num estacionamento do Pizza Hut, em frente, onde aliás almocei, e sigo meus afazeres até o fim da tarde, quando acabei voltando ao posto de ontem para mais uma noite, depois de escrever mais um pouco. Percorri hoje 1 km; percorreram testando o carro mais 7 km.  Reparos na Ford
Dia 12/Agosto/2007 – Domingo Dia de ver o Oceano Pacífico por primeira vez!!! E foi na Costa Verde, litoral de Lima, no município de Chorrillos. Tudo bem que não é uma Polinésia Francesa e que o dia estava assim meio cinzento, mas valeu mesmo assim!!! Sigo rumo norte pela Panamericana depois de sair da tal costa. Lugares a visitar como sítios arqueológicos, inscrições rupestres e centros históricos não faltam pelo caminho. Aliás, não faltam no Peru; tropeça-se neles até sem querer, mas estou com vontade de fazer quilometragem. Por aqui ainda voltarei... Mesmo assim vou seguindo as informações do guia e em Chancay paro para almoçar e experimento um ceviche misto. O melhor até o agora! De entrada veio “cancha”, que é milho tostado e salgado muito servido por aqui. Depois o ceviche com: peixe branco, polvo, mexilhão, camarão e algo mais que ainda não sei... xi, acho que finalmente comi uma ostra sem saber... acompanhados de batata, abóbora e milho cozidos. Bom de mais! Pra completar só mesmo uma cervejinha negra Cusqueña, que consegui que viesse gelada. Nas estradas continuo sendo parada pela maioria dos policiais, mas hoje tentam o primeiro suborno descarado. Ficou a ver navios! Não conhecem ainda a Luciana! rsrsrs Se tiver de pagar, pago a quem devo e a mais ninguém. E acabei por não pagar a ninguém! Mas na verdade, a questão ali era absolutamente financeira, não por de falha minha ou erro grave. Percorri hoje 378 km.
 Mirando el Pacífico por primera vez!
Dia 13/Agosto/2007 – Segunda Continuo pelo litoral conhecendo as praias e vilas. Hoje foi dia de passar por playa Tuquillo, Punta Culebras, cidade de Casma, onde visitei o Museu Regional Max Uhle, e o sítio arqueológico da cultura Sechin, destacando-se os murais e painéis em baixo relevo que adornam as paredes das ruínas em muito bom estado de conservação. Esta foi uma cultura que se desenvolveu no período de 2000 a 1000 a.C., antes ainda da cultura Chavin, tida como a base das culturas pré-incaicas. Uhau! Depois segui para o puerto de Casma e praias Tortuga, Samanco e Vesique. De todas, as que mais gostei foram Tortuga, não por ser exatamente linda pois é de cascalho, mas é um lugar acolhedor, e Vesique, que só não fiquei por não haver viva alma. Volto a ver por aqui pelicanos que desde o caribe não os via. Pensava em ficar em Chimbote, mas acabo me deparando com uma cidade bastante movimentada e decido seguir até Santa, próximo município, onde acabo dormindo num posto de gasolina a beira da estrada e onde também faço minha pior refeição até aqui. Quando um não está a fim de fazer algo, por mais simples que seja, difícil que saia bom... Arroz com feijão frios e frango cru, que tal?! Eu teria feito melhor, mesmo que saísse queimadinho, minha especialidade na cozinha. rsrsrs Percorri hoje 252 km.
 Murais em Sechin Puerto de Casma
Dia 14/Agosto/2007 – Terça Acordo e toda feliz vou ao banho e... nada de água quente! Testo o gás do fogão e da geladeira e nada. E o gás reserva que coloquei ontem? Me visto novamente e saio para checar se ficou fechado e... nada?!?!? Bom, o jeito é se adaptar a realidade e seguir sem banho até resolver o assunto. Próximo destino Trujillo, passando por mais uma região desértica da costa peruana. Areia e só areia por todos os lados e nada de comércio ou coisa alguma no meio! São cento e poucos km assim. Na chegada começo minhas visitações pelo sítio arqueológico Huaca del Sol y Huaca de la Luna. imeira delas funcionou como centro político e administrativo, e a segunda, e única aberta à visitação interna, como centro cerimonial, onde se destacam os templos sobrepostos de acordo com as diferentes etapas da dominação Mochica e com pinturas policromáticas. Entre essas duas construções se localiza a zona urbana composta de vivendas, grandes avenidas, becos, corredores e praças, o que mostra o alto grau de organização política, religiosa, econômica e social da cultura Moche, que se desenvolveu no primeiro século d.C. Este foi o museu e sítio arqueológico mais bem organizado até o momento, com guia acompanhando a visitação, além de uma área com banheiros, lanchonete, lojinha e estacionamento. Tudo incluso no ticket, coisa rara por aqui! Segui para outro centro arqueológico, o museu e a Cidade de Chan Chan. Toda feita de barro, foi a capital do reino Chimú, ocupando uma área de 20 km², estimando-se que tenha abrigado mais de 100 mil pessoas. Aqui se destacam os enormes muros decorados em relevo com figuras geométricas, estilizações zoomórficas e seres mitológicos. Neste último passei uma situação que chocou pela atitude de total desinteresse e atenção ao visitante, acima de qualquer valor que poderia citar, e que muitas vezes vem de longe para conhecer um pouco dessa maravilha. Para visitar o museu e o sítio arqueológico é cobrada uma taxa. Até aqui tudo bem! Depois todos tentam te vender um folder com informações básicas, que percebi por outras atitudes já estar incluso na tal taxa, a preços variáveis que podem dobrar, dependendo do vendedor e da cara do freguês. Depois cobram por um guia um valor 2 vezes maior do já gasto até aqui para que te acompanhe na visitação as ruínas, independente se você está sozinho ou com um grupo, e problema seu se não quiser. E ainda te boicotam se você sugere aderir a um outro grupo e a participar com eles neste custo. O que ficou evidente é que só importa o tostão que cada um consegue arrematar aqui e ali. Fiquei indignada com a atitude! Bendita organização das Huacas del Sol y de la Luna! E de outras tantas visitações que, apesar de não tão bem organizadas, sempre houve uma compreensão maior da minha condição “solitária”, sendo possível me integrar e participar nas despesas com algum outro grupo ou a uma participação menor na falta de mais pessoas. Que me desculpe toda a história acumulada naquelas “paredes”, mas a fila de guias sentados, desocupados e desinteressados me chocou! E ainda quando decidi seguir sozinha veio um outro tentar me vender outra vez o tal folder pelo dobro do valor! Completou o absurdo! Pena que não tirei uma foto da situação pra incluir aqui. Bueno, vamos focar em outras coisas... Ah, já ia me esquecendo... na entrada do museu havia ema exposição de filhotes de uma raça de cachorros sem pelo algum que se chama Virgo e que dizem ser remanescentes das culturas pré-incaicas, conforme representações encontradas. Eu já tinha visto outro exemplar deles em alguma outra parte, mas achei que era um cão sarnento! Daqui tomo rumo sul novamente. Este será meu ponto mais ao norte nesta primeira etapa da viagem. Volto ao mesmo posto de gasolina de ontem, pois consigo uma lavanderia ao lado que me entregue a roupa limpa amanhã cedo. Oba! E também consegui encher meu próprio botijão de gás trazido do Brasil numa envasadora saindo de Trujillo. Aqui a válvula e o botijão são diferentes, coisa que eu já imaginava. Percorri hoje 258 km.
 Pinturas no templo Huaca de la Luna Muros decorados em Chan Chan
Dia 15/Agosto/2007 – Quarta Acordo e banho! Ops... não tem água quente de novo? Devo ter deixado o botijão fechado. Me visto novamente e lá vou eu verificar... Esse é um dos momentos em que outra pessoa faz falta! rsrsrs Resolvido finalmente! Meta do dia: chegar na Cordillera Blanca, mais precisamente em Caraz. Sigo pelo litoral até Samanco, onde dobro a esquerda e começo o caminho montanha acima. Os primeiros kms são de “asfalto”, mas logo começa a terra e novamente o bordejo e as pedras no caminho. E por falar nisso... um dos pés hidráulicos perde a trava e baixa sem que eu perceba. De repente ouço algo se arrastando atrás de mim. Paro, e verificando já o encontro dobrado pelos solavancos no chão. Bom, tratemos de achar uma solução: subí-lo já não dava, pois o cano interno tinha se dobrado; o jeito foi soltar o conjunto e subir tudo o máximo possível até achar quem mexa com isso na região. Até soltar tudo fui sozinha, mas não conseguia fazer o conjunto subir; precisava de mais força. Procurando uma solução, que seria usar o macaco hidráulico do carro, me chega outra... um caminhão no sentido contrário com dois homens e uma senhora dentro. A senhora se pôs a me admirar e a acreditar na ajuda divina; e os homens a conseguirem uma barra de ferro longa e me ajudarem a levantar e amarrar o tal pé. Como sempre, a união faz a força e todos saíram contentes. Eu por poder continuar a viagem e eles por poderem me ver saindo da frente deles. Lembre-se, não passam dois por essas estradinhas! Em Pamparoma, no próximo vilarejo, me indicaram o padre David, o “santo milagreiro”, para fazer o concerto, mas decido continuar até meu rumo, atenta com a situação. Mais uma vez subo a mais de 4.000m de altitude, para depois descer a 2.285, em meu destino de hoje. No caminho cruzo com uma enorme moto estradeira com um casal em viagem e bem equipado! Como conseguem se equilibrar com tudo isso em meio a tantas pedras! Na entrada da cidade consigo a indicação de uma oficina e lá vou eu. William me atende e diz poder fazer o serviço, mas deixando hoje, que já era fim de tarde, e pegando amanhã na hora do almoço. Ok, topo! Depois saio buscando onde pernoitar e descubro um “restaurante campestre” onde “almojanto” truta e tenho estacionamento “tranqüilo”! ...não fosse a terra começar a se mexer abaixo dos meus pés!!! Ops, será a cervejinha que tomo fazendo efeito diferente nas alturas? Seria possível! Mas a cozinheira também sente. Os cachorros também estão incomodados. E percebemos que isso tem outro nome: TERREMOTO! Nessas horas segundos parecem uma eternidade, mas na verdade durou alguns tantos minutos. Inicialmente mais fraco, mas depois toda a construção parecia se mover. Me levantei pra sair e me diziam: não, não passa nada, não se preocupe... Bom, quando as coisas pareciam ter se estabilizado começou a troca de informações e me contaram que em 1970, naquela mesma região, com mais intensidade em Yungay, meu destino no dia seguinte, havia tido um terremoto terrível enterrando o município, além de fazer muito estrago nas redondezas de Huaraz até Caraz, onde estava neste momento. Que tranqüilizador!!! De volta ao camper, ainda sentia a terra se mover e começaram os torpedos e o celular a tocar. Eram minhas queridas amigas Nina e Alice, diretamente do Brasil, querendo notícias e trazendo outras mais, como a previsão de um Tsunami... Fiquei impressionada com a rapidez das informações. Foi questão de 15 minutos e começava o intercâmbio entre nós. Conseguia mais informações delas do que das rádios locais! Na escala Richter foram 7.2 graus de magnitude. Considerável! O centro dos abalos foi em Ica, estado vizinho a Lima, ao sul, mas com “réplicas” e estragos em Lima também. Eu estava 471 km ao norte de Lima. Como resultado de todo o “movimento” do dia estava cansada e acabei dormindo como uma pedra. Percorri hoje 197 km.
Cordillera Blanca ao fundo, inclinados cultivos na montanha e minha estradinha
Dia 16/Agosto/2007 – Quinta Acordo com minha mãe me ligando. Como foi dormir cedo ontem, não soube da notícia antes, mas logo pela manhã se intera e lá está ela desesperada. Calma, pessoal, estou viva! Levanto e sigo procurando mais informações... Com o socorro de ontem na estrada, a “oficina” estava uma bagunça e com ferramentas espalhadas por toda parte. Trato de arrumar e aproveito para reorganizar melhor cada coisa. Com o uso a gente vai percebendo o que é importante ter mais a mão. Banho e cidade pra recolocar o tal pé hidráulico. Testando parece que ficou bom! Na Plaza de Armas de Caraz, uma graça por sinal, faço Internet para tranqüilizar mais gente e saber de novas informações, mas as linhas estão todas meio congestionadas e exercito minha paciência frente ao computador. Almoço por ali mesmo e trato de seguir até Yungay, subindo para o Parque Nacional Huascarán, setor Llanganuco, onde se localizam as lagunas de água turquesa Chinancocha e Orconcocha, resultado do desgelo do nevado Huascarán. Lindo demais!!! E ali, na entrada do parque, pernoito, ainda meio preocupada com o movimento da terra. Estou exatamente onde aconteceu a tragédia de 1970. Apesar de um não ter nada há ver com o outro, impressiona! Percorri hoje 58 km.
 Plaza de Armas de Caraz Ponto de pernoite na entrada do parque
Dia 17/Agosto/2007 – Sexta Acordei muito cedo, mas com o frio que fazia não me animei sair do ninho. De repente alguém começa a chamar batendo por todo o carro, meio que sem saber onde eu me encontrava exatamente, e enquanto não levantei não parou. Era Nicolas, um rapaz se oferecendo como guia para me acompanhar pelo parque. Como já tinha programação para o dia e não haveria necessidade: no gracias! -¿ Entonces puedo llavar su carro? - No gracias! - ¿ Puedo ayudarte en algo? - Por hoy no, gracias, pero voy a recordar de ti se necesito, si. - Hago cualquier cosa por una polo (camisa polo)! - Ok, Nicolas! E ja que estou de pé, começo meu dia. Depois dos devidos registros na entrada do parque, subo com o carro até a primeira lagoa e estaciono num mirante. Que linda cor, por Dios! Como sempre há afazeres por resolver e vou primeiramente a eles. Fazem parte das obrigações desta rotina e normalmente trato de eliminá-los o quanto antes. Este meu pequeno mundo depende bastante dos meus cuidados, assim como eu também dependo dele! Não posso reclamar! Depois me ponho a escrever e tratar de atualizar um pouco mais do Diário de Bordo. Mais tarde, mais visitas batem a minha porta; abro e me deparo com um dos amigos de Fernando que estava na tal festa em família em Ayacucho. Estava por uma semana em “vacaciones” (férias) e passando em Huaraz. Reconheceu o carro e veio dar um oi. Acho que estou recebendo mais visitas em viagem do que estando na minha casa em Florianópolis! No fim da tarde desço novamente para a entrada do parque para outra noite. Percorri hoje 15 km (dentro do parque).
 Laguna Chinancocha... e Orconcocha
Dia 18/Agosto/2007 – Sábado Noite mal dormida!? Preparo o carro e desço para Yungay. Imagino que estejam preocupados comigo, pois onde estava estou incomunicável e houve mais tremores pelo sul. Assim que meu celular tem sinal começam a chegar as mensagens. Estando aqui é mais fácil de entender que são duas regiões razoavelmente distantes uma da outra, mas para quem está de fora da situação, fica mais difícil entender o que e onde se passa cada coisa. Entendo também e trato de dar a devida atenção a quem se preocupa e vou a Internet acalmar a turma. Depois almoço pelo caminho uma comidinha típica e sigo para a Laguna Parón, a 4.200m de altitude. Ao redor mais nevados com seus picos congelados. Às vezes nem eu acredito onde me enfio, mas sempre há a recompensa! Logo na chegada outro espetáculo! Dos mais belos até agora! Com água turquesa novamente e uma trilha dando a volta por um dos lados da lagoa, não resisto e saio para uma caminhadinha depois de acomodada e devidamente apresentada ao responsável local, Raul. Faz muito frio e não consigo ficar fora por muito tempo. Trato de voltar e deixar mais explorações para amanhã. Um vinhozinho me ajudar a aquecer a noite, já que... Percorri hoje 70 km.
 Laguna Parón, que tal!
Dia 19/Agosto/2007 – Domingo Rrrrrr que noite fria!!!!! Quando consigo sair da toca vou para uma caminhada e sessão de fotos. Quero mostrar pra você tudo isso! Este foi dos lugares que mais senti paz estando no Peru. Não tenho vontade de ir embora! Mas perto da hora do almoço sigo montanha abaixo dando carona para a esposa do Raul. Hoje é domingo e vejo gente reunida festejando e bebendo por todos os lados, inclusive pelo meio das estradinhas. Atenção redobrada com os “borrachos”! Também é dia de comer “Pachamanca”, um prato regional feito com carnes de porco, frango e carneiro cozidos debaixo da terra com outros tantos ingredientes. Nem todos consigo traduzir, mas são eles: tamal, humita dulce, habas, oca, camote (batata doce), papa (batata), queso (queijo) e rocoto (pimentão) com huacatay. Me faz lembrar o barreado que servem em Morretes, no litoral do Paraná. Volto ao restaurante de ontem que fez uma baita propaganda do prato e... não vão servir hoje. Como fiquei só na vontade, quando conseguir comer traduzo melhor pra vocês, ok! Na saída do almoço reparo que um dos lados do pára-choque esta molhado onde não teria porque. Verificando, sinto o cheiro de uva e imagino ser da garrafa de suco que está no guarda-roupa (que lugar também!); não quis nem ver, imaginando o estrago... Segui rumo Carhuaz, para depois dobrar a esquerda em direção a Quebrada Ulta, na ladeira sul do nevado Huascarán, voltando ao território do Parque Nacional. Com uma informação errada do guia que estou usando, acabo chegando primeiro na entrada do parque, para 50 km adiante, ainda, chegar a Chacas, onde pensava pernoitar. Acabo ficando na entrada do parque para não fazer o trecho de noite. Aí, abro o camper e descubro uma situação um pouco melhor do que imaginava; era uma garrafa de vinho da “adega” localizada abaixo do armário de roupas que se quebrou com os solavancos. Pelo menos era só o vinho a limpar e não as roupas também. Tratei de tirar a tal garrafa de suco imediatamente do meio das roupas pra não ter nem de imaginar esse estrago novamente! Percorri hoje 109 km.
 Vista da janela da minha casa hoje em Parón Domingo, dia de festa nas comunidades
Dia 20/Agosto/2007 – Segunda Noite mal dormida, talvez pelo lugar ermo demais ou por não estar gastando muita energia. As 7h já estou rodando, apesar do frio que faz. Subo e subo mais uma vez vendo uma vegetação de tundra e mais acima cachoeiras e fios de água semi congelados, atingindo aqui um dos pontos mais altos até agora, a 4.890m de altitude no cruze da Punta Olímpica, entre as Cordilleras Blanca e Negra. Do outro lado, descendo, lagoas e mais lagoas. Minha dedução óbvia destas denominações é: Blanca, porque está do lado ocidental dos Andes, com geleiras e picos nevados; e Negra porque está do lado oriental, onde fica mais a mostra a formaçao das montanhas, que são escuras, apenas com os picos nevados. Pelo menos é isso que se vê! Sigo, passando pelo vilarejo de Chacas, depois San Luis, onde me surpreendo com um lugar “hermoso”; na Plaza de Armas uma linda igreja e casas coloniais adornadas com antigos balcões de madeira entalhados; todos limpavam a festa de domingo. Continuo rumo a Huari e depois Chavin, onde se localizam as ruínas de Chavín de Huántar. Mas deixei a visitação para amanhã. Tratei de “almojantar”, circular pela vila e procurar onde estacionar para dormir. Percorri hoje 180 km, entre as 7 e 15 horas; daí se tira uma idéia das estradas!
 Cordillera Blanca... Cordillera Negra; entenderam! Balcões de San Luis
Dia 21/Agosto/2007 – Terça Dia de visitação ao Sítio Arqueológico Chavín de Huántar, onde se desenvolveu a cultura Chavín, no período de 1.200 a 200 a.C., tida como o berço das civilizações pré-incaicas. O conjunto arquitetônico se encontra espalhado numa área de 40 hectares, onde se destacam o Templo Viejo, o Templo Nuevo, o Lanzón Monolítico e as Cabezas Clavas. À parte de muita história a se comentar, também valem as curiosidades, e tanto aqui como na cultura Sechín visitada na cidade de Casma, eram povos degoladores, motivo de tantas representações em cabeças cravadas em pedras ou em relevo nos murais. Hoje conheci um casal de alemães que estará viajando pela América do Sul nos próximos 6 meses e com a perspectiva de passar o Ano Novo na Terra do Fogo; aqui começa a lista dos prováveis reencontros no final do ano. Também gostaria de estar por lá, quem topa? Sigo com destino a Huaraz, passando antes por Catac, Recuay e Laguna Querococha, como todas, linda! E desta vez de águas negras com as bordas azuladas. Estava ávida por uma comidinha mais “úmida” depois de todo o pó da estrada e acabei por almoçar um ceviche (bom!) na chegada em Huaraz, capital montanhosa do estado de Ancash e que também sofreu muito com o tremor de 1970. Hoje é um lugar muito simpático e agradável! Ali aproveitei a civilização e levei roupa pra lavar, além de passar num caixa eletrônico e de trabalhar horas na Internet atualizando o site num cyber com gente muito atenciosa. Como já eram quase 10 da noite quando parei, me convidaram para ficar ali mesmo, estacionada em frente, o que resultou numa noite meio movimentada. De vez em quando tudo bem... Percorri hoje 126 km.
 Laguna Querococha Cabeza Clava en Chavín de Huántar
Dia 22/Agosto/2007 – Quarta Pela manhã e desde muito cedo trabalhei outro tanto escrevendo. Depois, ainda aproveitando as facilidades locais, fiz supermercado, busquei a roupa limpa e fui almoçar. À tarde, outra sessão frente ao computador e mais um tanto da missão cumprida. Dá trabalho, mas também estou tendo muito prazer em compartilhar minhas experiências com a família, os amigos e todos os interessados e mais ainda em ouvir e ler os comentários depois. Fica aqui meu agradecimento a sua participação e aproveito pra dizer que também estou aberta a dicas e sugestões, tanto na viagem como no site. Assim, trilhamos juntos este caminho! Hoje também foi dia de encontrar bilhete no pára-brisa. Era de algum brasileiro reconhecendo o carro vindo de sua terra natal e desejando boa sorte. Valeu Alexandre! No fim da tarde e com a vida em dia, trato de sair da cidade e buscar um lugar tranqüilo para a noite. Escolho, e sou aceita, um belo parque de hotel com gramado e pinheiros ao redor. Percorri hoje 27 km.
 Num dos meus postos de trabalho ...mas o que mais gosto é esse aqui!
Sai 23/Agosto/2007 – Quinta Como resultado da boa escolha do local de pernoite e mais as tantas horas de computador, acabo dormindo absurdas 11 horas esta noite. Uhau! Como meu note book anda dando umas rateadas, trato de fazer back up de tudo que posso, exceto das fotos desta viagem, que estão formando um arquivo muito grande e não tenho aonde salvá-las neste exato momento. E nisso se vai a manhã e o começo da tarde. Ossos do oficio! Tarefa do dia cumprida, saio com destino ao Cañón Del Pato, indicado pelo senhor do hotel em Cuzco. E muito boa dica por sinal! Um cânion estreito e profundo, com infindáveis túneis lapidados na pedra e sem iluminação interna, por onde só passa um de cada vez; parece que você está entrando num trem fantasma, sem saber o que vai encontrar pela frente. Chocante e lindo! Ops! E não é que baixa novamente o mesmo pé hidráulico já arrumado. Já carimbada, percebo logo e a tempo de não entortá-lo novamente. Paro, subo o pé e trato de travá-lo melhor. Atualizada com as informações colhidas em Huaraz e sabendo que os tremores pelo sul ainda não cessaram com as réplicas do terremoto do dia 15, tomo a decisão de voltar a apontar meu rumo para o norte, ao invés de Chile e Bolívia, e seguir viagem para o Equador. Assim, prevendo fazer este trecho em + ou - 3 semanas, acredito que as coisas por Lima e ao sul já devam estar mais estáveis depois disso. Seguirei acompanhando as noticias de qualquer forma, mas daqui, desço para o litoral e sigo novo destino, me adaptando a realidade encontrada. De Huallanga, onde passo a noite, tento contato por celular com minha sobrinha Victória. É seu aniversário. Consigo enviar uma mensagem, mas só chega no dia seguinte. Acho que “atrasou o vôo!” Parabéns Vick!!! E este é um ano de comemoração especial! Percorri hoje 90 km.
 Pelo Cañón del Pato Vick, especialmente pra você desde o Peru!
Dia 24/Agosto/2007 – Sexta Noite mais quente que o habitual, provavelmente pela proteção do cânion contra os ventos gelados e pelo calor retido nos paredões que nos cercam estando aqui. Acordei cedo e não contente com a conversa de ontem com o policial que me indicou o caminho a seguir, volto a falar com ele antes de sair. Agora fiquei tranqüila! As 6:45h zarpava. A estrada continua por um vale, mas a quilometragem indicada para o trecho de terra não tinha nada a ver com a realidade, que foi quase o dobro. É curioso observar como essa coisa de distância é diferente para os peruanos. Elas se medem em tempo de viagem e não em quilômetros. É certo que as estradas não são boas em sua maioria e fazer 30 km na terra é diferente de fazer no asfalto, ainda mais se for montanha acima e com muita pedra. Leva-se muuuito mais tempo. Mas outro dia, quando entrava em Lima, perguntei para um policial rodoviário que me parou quanto faltava e ele me respondeu: Umas 3 horas. Perguntei a quilometragem: Ah, uns 70 km! – que eram de puro asfalto. Dificilmente se consegue ter uma informação precisa e o jeito é seguir com margens de folga para todos os lados; em combustível e em tempo. Chego no litoral por Santa, logo depois de Chimbote, onde já havia estado antes passando 2 noites. Daqui sigo rumo norte, com uma parada técnica na Ford em Trujillo para regular o freio que voltou a apresentar o mesmo problema de antes e aproveitar para drenar a água do filtro de combustível, já que a luz no painel acendeu hoje, e trocar o filtro de ar, uma vez que não devo pegar mais tanta terra daqui pra frente até a volta do Equador, imagino! Entre a espera pelo horário de almoço da concessionária, que era da 13 às 15h (que horário!), e mais o tempo para os serviços, acabei pernoitando frente à praia de Huanchaco, bem perto da cidade. Simpático lugar! Percorri hoje 309 km.
 O estreito Cañon del Pato ...seguido por este lindo vale.
Dia 25/Agosto/2007 – Sábado Hoje comecei o dia ao contrario; levantei, tomei banho, café e depois arrumei a cama. É pra variar e não criar rotina! rsrsrs Pensava em ir direto pra Lambayeque conhecer os Tesouros de Sipan, mas aí entro numa prainha aqui... num porto ali... passo pelos povoados curiosiando... mais meia hora de Internet pelo caminho... até que no meio da tarde, em Pimentel, acabo achando um restaurantezinho charmoso frente ao mar e decido ficar por aqui mesmo, aproveitando a tranquilidade do lugar para trabalhar um pouco no computador, salvando as fotos nos CDs que comprei pelo caminho. No fim da tarde uma caminhada pelo calçadão e pelo pier, de onde saltavam os surfistas mar adentro buscando a onda perfeita. Venta e faz frio, mas não resisto a uma sessão de fotos ao entardecer. Sei que é um tema batido, mas adoro! Inspirada, faço pra janta palta (abacate) temperado com salsa golf, tomate picado e pimenta, acompanhado de Doritos. Huum! À noite durmo ninada pelo vento que balança o carro. Percorri hoje 218 km.
 Fim de tarde e... porto, em Pimentel.
Dia 26/Agosto/2007 – Domingo Acordei cedo e como estava muito bem descansada, tratei de levantar e seguir meu caminho. Mas são 6 e pouco de la matina e hoje é domingo! Não sei o que me deu?! Só da eu na rua! Sigo devagar rumo ao Museu Tumbas Reales de Sipan aproveitando para conhecer o “pueblito pesquero” de San José. Seria mais simpático não fosse tanto plástico voando ou enganchado nos galhos secos do árido território em que se localiza. Isso não acontece só aqui, mas em todo o desértico litoral que já visitei no Peru. É incrível a absoluta falta de consciência, que claro não são os únicos, com o lixo descartado por todo e qualquer lugar, e acaba que a praga do plástico é a que mais se sobressai e perdura em meio a esse areal todo. Que lástima! As 9h abre o museu; chego 15 minutos antes. No estacionamento, reforço o café da manhã que acabou sendo cedo, e quando saio do camper vejo uma outra “casa rodante” chegando. A bandeira era francesa e com um casal que vem descendo as Américas desde o Canadá. Eles também pretendem passar o fim do ano na Terra do Fogo, fazendo crescer a lista dos prováveis reencontros no Ano Novo. Nos apresentamos, trocamos informações e contatos, e fica no ar a promessa de fazermos juntos algum trecho em algum momento. Ohala! No museu foram 3 horas de visitação para conhecer um pouco da história do Senhor de Sipan, governante mais importante da cultura Mochica, acreditando-se que tenha sido uma tripla divindade para seu povo. Enterrado há quase 1.800 anos, seus restos foram encontrados em 1987 no Complexo Arqueológico de Huaca Rajada, 35 km ao sul de Chiclayo, em muito bom estado de conservação e permite apreciar o ritual de enterro de um governante daquela época; junto dele estavam sepultados um guerreiro, um sacerdote, duas mulheres, uma criança, um cachorro, uma lhama, e um guardião com os pés amputados. Junto deles encontravam-se numerosas jóias em ouro e prata decoradas com pedras semi-preciosas como turquesa e lápis-lazúli, além de cerâmicas e vestimentas. Um verdadeiro tesouro! Para quem quer saber mais: www.tumbasreales.org, já que não pude fotografar. De volta a estrada sigo pelo deserto de Sechura com destino a Bayóvar, porto pesqueiro e petrolífero, onde avisto mar azul e verde por primeira vez no Peru. Também visito o Manglar de San Pedro e cortando vários povoados chego em Piura, capital da província e agradável cidade com ruas amplas e arborizadas, limpa e organizada, mas decido seguir até Paita para pernoitar, cidade litorânea. Lá, consigo um protegido lugar junto ao corpo de bombeiros, onde fui muito bem recebida pelo Sr. Luis, bombeiro, e sua esposa. Percorri hoje 413 km.
 Casas-rodantes em Tumbas Reales de Sipan Mar de Bayóvar
Dia 27/Agosto/2007 – Segunda Dia de conhecer as praias de Tortuga, não recomendo!; Cangrejo, simpática, mas absolutamente deserta e com as poucas casas tomadas pela areia que cobria mais da metade da altura, dando um ar meio fantasmagórico!; Yasila, interessante vila de pescadores onde pude assistir muitas canoas chegando da pesca na areia da praia e trazendo na bagagem lula, camarão, peixe rey... ; continuo até Colán, modesto e agradável balneário com praia de mar calmo onde vejo pela primeira vez casas de veraneio e onde se encontra a igreja mais antiga do Peru, no povoado Esmeralda. Passeando pelas principais ruas, que são duas e de terra, decido ficar por aqui hoje. Almoço e acho um canto pra ficar junto a uns bangalôs frente ao mar. Como é baixa temporada, fica mais fácil me acomodar em lugares privilegiados. Percorri hoje 113 km.
 Ok, eu empresto a minha casa de praia, mas... Praia de Yasila
Dia 28/Agosto/2007 – Terça Acordo e me ponho a caminhar pela praia bem cedinho. Agasalhada, pelo frio que fazia, mas de pé no chão, como gosto. Há quanto não faço isso! ...desde que saí de Floripa. Adoro o amanhecer quando parece que a Terra ainda está dormindo e começando a despertar, sem grandes movimentos, sem barulhos, com o sol surgindo e brincando com o mar... me dá muita paz! Aqui o script é outro, pois vejo o sol se pondo no mar ao invés de nascer, estando eu a oeste do continente. É curioso, porque me da a sensação de que o dia demora a começar, mas também dá um show quando se põe! Na praia, pescadores chegam do mar com peixe rey e vejo enormes “águas-malas” (águas-vivas) na areia. Impressionam! Tiro o dia para afazeres no camper e trabalho no “comp” para adiantar outro tanto do Diário de Bordo. Lugar perfeito pra isso! No fim da tarde faço meu “almojanta” e assisto um super pôr-do-sol da janela da “sala”. Uau! Hoje volto a poder usar bermuda durante o dia. Desde a chegada nos Andes, aquela em que eu estava de bermuda na neve, não pude mais estar assim. Que bom variar um pouco, mas também gosto do frio, seja ele “inho” ou “ão”. Percorri hoje 2 km pensando em ir almoçar na vila, mas voltei pro meu canto inspirada por fazer eu mesma. Que raro!
 Água-mala em Colán; e olha que meu pé é 39 Pôr-do-sol da minha janela
Dia 29/Agosto/2007 – Quarta Outro dia por aqui e na escrita novamente, além de curtir um pouco os arredores cercanos. Só peguei o carro para ir almojantar no restaurante do Sr. Alfredo, que me pescou na rua no primeiro dia em que eu estava saindo do almoço em outro restaurante. “Vendeu bem seu peixe” e decidi experimentar hoje. Lá conheço Sr. Eduardo Pastor, presidente do Centro de Entrenamiento Pesquero de Paita, entidade dedicada ao treinamento de pessoal para a pesca artesanal mais segura e consciente. Muitas embarcações são realmente precárias e se lançam ao mar sem o mínimo de segurança, coisa que também conhecemos. Esta entidade ensina aos pescadores noções de funcionamento dos motores para o caso de pane, a necessidade da utilização de um radio para comunicação, de segurança a bordo... A pesca no Peru é uma das principais atividades econômicas. Se eles não têm um litoral lá muito atraente para o desenvolvimento da atividade turística, tem no mar uma boa alternativa, com uma costa bastante rica e explorada. No ceviche misto de hoje experimentei “percebes”, que vem a ser o miolo de uma concha que se prende às pedras, sendo retiradas na baixa das marés; depois de fervidas são abertas e soltam uns cones de mais ou menos 5cm de cor bordô e com textura meio emborrachada, que é o que se come. Gostei! Percorri hoje outros 2 km até a vila.
 Curiosidades: placa sinalizando obras na pista... e que tal a precisão dos kms nesta!
Dia 30/Agosto/2007 - Quinta Meta do dia: me dar um trato cuidando das unhas dos pés e mãos, banho... e seguir viagem. Tenho de aproveitar o fácil acesso à água! Sigo caminho passando por Sullana, cidade grande; depois Talara; Cabo Blanco, que é outro centro pesqueiro e petrolífero, com um farol sinalizando o cabo e onde havia uma espessa névoa branca encobrindo o vilarejo; logo de cara soube a explicação para seu nome. Tem coisas que a gente não precisa nem perguntar, é só observar! Sigo até a praia de Los Órganos, que também tem um pequeno porto pesqueiro. Depois de um reconhecimento da área, acabo fazendo minha refeição frente ao mar e a outro lindo pôr-do-sol. Ao lado um canto agradável para passar a noite. Aqui vejo novamente casas de veraneio e com uma arquitetura bastante interessante. Usam muito o bambu, principalmente no revestimento das fachadas, no para-peito das varandas e nas aberturas para ventilação. Como revestimento, não usam o bambu inteiro, mas fazendo um corte no comprimento e abrindo, deixando como um papel de parede. Fica muito interessante, dando um ar tropical e fresco as casas, que aqui são mais charmosas e requintadas. Consigo dormir sem meias, mais um indicativo de que o clima segue mudando. Percorri hoje 200 km.
 Cabo Blanco
 Charme arquitetônico
Dia 31/Agosto/2007 – Sexta Gostei daqui e sigo explorando a região. É um misto de lugar virgem mas com algum desenvolvimento, com praias tranqüilas, em sua maior parte desertas e de areia clara, com poucas casas e pousadas tipo bangalô, de construção mais elaborada e simpática, com viveiros cultivando plantas ornamentais para venda e plantio local, o que mostra uma maior consciência no desenvolvimento desta região. Circulando com o carro trato de ver bem onde piso, com tanta areia por todos os lados; tenho que me lembrar que não estou com um 4x4, como de costume, e que o conjunto pesa quase 4 toneladas. Na verdade estou com um 4x3; a tração traseira do carro e um belo guincho WARN para 12.000 libras adiante! Bendita Auto 4, que importa e distribui esse poderoso equipamento no Brasil, e a Four Wheel, que fabrica o suporte para esta feliz união; guincho e carro. (ver Parceiros e Créditos) E olha que tenho experiência nisso! Depois dos dias dedicados à escrita tenho de botar no ar o resultado e saio à busca de um cyber café. Acabo por ficar 5h e meia diante de um computador respondendo e-mails e atualizando o site. Posso dizer que foi mais um dia (gratificante!) de trabalho! Para almojanta Chupe de Langostino, tipo de ensopado de camarão com algo de arroz e mandioca. Gostoso, mas esperava algo mais consistente! Já para escurecer, trato de entrar em Mâncora, outra praia, e procurar “abrigo”. Sigo por um caminho alto mas beirando o mar e vou curtindo outro belo pôr-do-sol, ouvindo boa musica e viajando... sonhando com o que mais quero da vida... sim, porque sempre queremos mais do que temos, algo que ainda não realizamos... e apesar de já ter muito e agradecer todos os dias por mais esta conquista, tenho mais pela frente, tenham certeza! Paro frente a uma linda pousada, com gente acolhedora e simpática. Fico! Percorri hoje 30 km.
 Pequeno mas concorrido porto em Los Órganos Atlas e sua 3ª traçao
Dia 01/Setembro/2007 – Sábado Saio para reconhecimento da área, agora em Mâncora, mas que tem as mesmas características da anterior, só que numa área maior. Pego um caminho comprido que vai de praia em praia com exóticas casas, coisa rara por aqui. É verdade que só bem ao norte do Peru, já quase na fronteira com o Equador, é que começa um litoral mais atraente do ponto de vista turístico, e que não haveria muita razão para existir essas construções num litoral tão inóspito como o que se vê nessa costa, mas mesmo nas montanhas, que é lindo de morrer, não se vê um lugar com belas casas de fim de semana ou veraneio. Sigo de olho nos detalhes arquitetônicos que curto fotografar e me inspirar para, quem sabe, aproveitar numa próxima casa que eu venha a fazer. No caminho descubro um canto tranqüilo em Vichayito e depois do recorrido elejo este ponto para ficar. De repente surgem dois caminhões e param ao meu lado; no chão um cano próximo a umas pedrinhas; um caminhão era a bomba e o outro, tanque para transporte do petróleo retirado. Que hilário! Tentei água para abastecer o camper durante o dia mas foi bastante difícil. Percebo a escassez dela por todos os lados e não é de hoje. Realmente é um litoral árido! Também foi dia de fechamento dos gastos e tudo indica que conseguirei me manter dentro do orçamento previsto no ritmo que estou impondo agora. Por mais que se faça um planejamento, as necessidades reais fora do seu meio habitual podem se mostrar diferentes, pra mais ou pra menos. No Peru, as coisas tendem a ser um pouco mais em conta que no Brasil, exceto o combustível, um pouco mais caro, e item importante no meu orçamento. Percorri hoje 48 km.
 Mâncora Retirando pretóleo do chao
Dia 02/Setembro/2007 – Domingo Domingão de verdade! Aproveitando a tranqüilidade do lugar fiquei lendo na cama boa parte da manhã. Depois biquíni e sol na praia com direito a banho de mar, o primeiro no Pacifico! No começo da tarde, banho e almoço para em seguida me colocar frente ao computador num cyber por mais algumas horas novamente. É incrível o tempo que se “gasta” em frente a essa maquininha, mas nela baixo e trabalho as fotos da câmera digital, documento toda a viagem, monto o Diário de Bordo, me comunico com o mundo, organizo as finanças... Ainda bem que ela pode me acompanhar aonde vou e que há cyber por toda parte. À noite volto ao mesmo posto de descanso em Vichayito. Que lugar gostoso! Percorri 22 km.
 Vichayito, simpático mas ainda monocromático Pescando na fria corrente de Humboldt
Dia 03/Setembro/2007 – Segunda Estou a cento e poucos kms da fronteira com o Equador e para lá rumo. No caminho paro num grifo (posto de gasolina) e dou uma geral no carro, que andou 80% do tempo que esteve no Peru, quase dois meses, por caminhos de terra ou areia. Atlas merece esse cuidado; ele tem sido um fiel companheiro e eu trato de mantê-lo em sua melhor forma, além de não despregar os olhos dele sem deixá-lo muito bem acomodado e protegido, numa relação de confiança mútua, como tem de ser nas relações mais saudáveis! Continuo pela estrada, que neste trecho beira o mar boa parte do tempo. Entro em Punta Sal, lugar simpático que vou parar na volta com mais tempo, pois meu visto vence amanhã e prefiro seguir mais adiante. Entro em Puerto Pizarro, onde me despeço deste país com outro ceviche misto; desta vez veio de diferente “conchas negras”, que tem um sabor mais forte e meio adocicado, soltando um caldo avermelhado. Como já era meio da tarde, decido ficar por aqui e atravessar a fronteira amanhã pela manhã. Durmo junto ao restaurante, frente ao mangue, há 20 e poucos kms da fronteira. Percorri hoje 133 km.
 Ondas perpendiculares a praia no norte do Peru Reparem nas canoas de totora, muito usadas
Dia 04/Setembro/2007 – Terça A difícil entrada no Equador! E ainda bem que já se passaram alguns dias para que diluísse minha ira com o acontecimento. Acho até que nem vou entrar em muitos detalhes, pois a “burrocracia“ e a corrupção costumam fazer parte dos países menos desenvolvidos e o tema nas fronteiras já é pra lá de conhecido e pode passar pra mim num dado momento, mas para o próximo da fila nada acontecer, assim, sem lógica alguma; depende exclusivamente da cara do freguês e do humor do sujeito que for te atender. E assim foi comigo. Cara de boa moça, sozinha, com um carrão desses... Ah! É essa mesmo a escolhida de hoje. Só que quem vê cara... nem imagina a ariana que existe dentro de mim! Com a alegação de que eu não tinha o carimbo de saída do Peru no passaporte, e sim no papel junto com a saída do Brasil, uma vez que brasileiros no Peru não necessitam mais do que a cédula de identidade para entrar e sair, acharam aí o que queriam para me colocarem em cilada e tentarem ganhar algum. Eu alegava dizendo que se viesse de avião teria de passar pelo Peru pra carimbar o passaporte antes de entrar no Equador? Entre outras, se foram quase 4 horas “negociando” e a coisa só se resolveu quando eu decidi ir ligar para a embaixada do Brasil. Aí, o mesmo sujeito que me mandou falar com um outro, quem me pediu a propina, foi me buscar na cabine telefônica, acabando inclusive por pagar a chamada, resolvendo-se assim essa situação, mas me deixando bastante estressada. No Peru, tanto a entrada como a saída foram “tranqüilas”, tirando a “propinagem” dos “despachantes” na saída e o fato de terem me dado somente 60 dias de permanência, ao invés dos 90 que seria possível e que foi dado ao carro, que logicamente não iria ficar mais do que eu, já que temos uma relação de bastante cumplicidade e companheirismo, e aonde eu vou, ele também vai e vice versa. O fato engraçado aqui foi que num dado momento na transação para a entrada no Equador, tive de voltar ao Peru e, já estando o oficial a par da minha necessidade de ir até a imigração novamente, pus pra correr de dentro do meu carro um subalterno dele, mais um pedindo propina, com um simples berro, pois eu já estava em ponto de explodir; e explodi! Depois, no caminho até a imigração, eu ria sozinha no carro e o sujeito nem ousou aparecer quando cruzei novamente a fronteira. Bom, pra quem não ia entrar em detalhes sobre as tais 4 horas, até que o dia já ficou bem cheio com isso. E pra completar, segui rumo a Guayaquil por estrada asfaltada em reparos, nem melhor nem pior das que já vinha enfrentando. Só mudou a paisagem, pois aqui tem ares mais tropicais, com muitas fazendas cultivando principalmente banana e algumas abertas ao turismo rural. No caminho entrei para conhecer a cidade de Machala, onde visitei o Museu Marinho e consegui um mapa do país, deixando assim de seguir farejando ou pelas poucas placas de sinalização. Percorri hoje 296 km.
 Estradas mais verdes, ar mais úmido Conchas do Pacífico no Museu Marinho
Dia 05/Setembro/2007 – Quarta Dormi num posto a beira da estrada na entrada de Guayaquil, para não entrar ontem à noite numa cidade grande que nada conheço. De manhã, na loja do posto, fui tentar algumas informações e acabei num papo de uns 40 minutos com o pessoal que atendia e comprava. Consegui o que precisava e mais outras tantas dicas muito úteis. Na verdade pensava em entrar na cidade só pra resolver algumas coisas e não é que me encantei com o lugar! Resolvi o que precisava, aproveitei a facilidade dos serviços, e com a obrigação cumprida, me pus a bater perna pelo centro. Cidade limpa com muitas construções antigas bem cuidadas, a beira do rio Guayas, movimentada “pero no mucho” com gente local e turistas, quente e com muito, mas muito a ver e conhecer. A começar pelo Malecón 2000, um calçadão a beira rio muito bem planejado, com um belo paisagismo, restaurantes, lanchonetes, lojas, mercado de artesanato, iate clube, hotéis, museus de tirar o chapéu, fontes, áreas para descanso e lazer pensando nos adultos e crianças, estátuas, planetário... não pouparam em nada e ainda bastante arborizado. No fim da tarde, já cansada e suada, fui fazer um passeio de escuna assistindo a cidade ir se iluminando com o cair da noite e aproveitando a brisa do rio pra relaxar. Num posto Móbil a 2 quadras do Malecón e com uma loja de conveniências KFC, consegui abrigo para pernoite. Minha dose de urbanização! Percorri hoje 23 km.
 Desde el rio, mirando el Malecón y Cerro Santa Ana A cidade a noite
Dia 06/Setembro/2007 – Quinta Posto bastante agitado durante a noite e madrugada, conclusão: a melhor hora pra dormir foi pela manhã, quando pulei da cama, e as 7:45h já batia perna atravessando o Malecón de ponta a ponta, pronta pra continuar minha visita pela cidade. Aí fui descobrir que a vida só começava depois das nove. Sentei frente ao rio e relaxei! Com a cidade já acordada, fui a livrarias a procura de um bom guia, fiz um city tour num desses ônibus de dois andares e com a parte de cima aberta, almocei no tal Malecón, fui ao novíssimo MAAC – Museu de Antropologia e Arte Contemporânea, cortei o cabelo e finalmente, já de noite, voltei ao posto onde estava Atlas me esperando, além do gerente Rafael e do guarda, preocupados que algo tivesse acontecido comigo. Que bom é voltar para casa! Percorri muuuitos kms a pé hoje, mas Atlas descansou.
 Relaxando frente ao rio pela manhã Andando pela cidade
Dia 07/Setembro/2007 – Sexta Com mais uma noite agitada no posto e tudo que só engrena mesmo a partir das 10h, dormi e fiquei lendo na cama até umas 9:30h, quando me levantei para mais um dia em Guayaquil. Quem me conhece não deve estar acreditando; Luciana, tantos dias numa cidade grande?! Bom, comecei minha busca por informações nas agências de turismo para visitar as ilhas Galápagos, arquipélago a 1.000 kms da costa, conhecido principalmente por sua rica fauna marinha e terrestre, com animais endêmicos, ou seja, que só existem nestas ilhas e em nenhuma outra parte do mundo, e onde Charles Darwin desenvolveu sua teoria de evolução do homem. Quero chegar lá! Também visito o Museu Nahim Isaias, que apresenta a exposição Ventos de Ría, contando a história da antiga Província de Guayaquil e o surgimento da atual cidade-porto, além de manter uma exposição permanente de arte colonial. Almoço no Malecon 2000 e na mesa ao lado um brasileiro desgostoso por ter de estar 1 mês a trabalho no Equador; tento tornar sua visita um pouco mais positiva falando das coisas boas e lugares interessantes que tenho conhecido nesta terra, sem comentar o fato da imigração, claro, que eu mesma tenho tentando esquecer para não encobrir tudo de lindo que essa terra e essa gente tem. No fim da tarde, com o sol menos escaldante, subo os 444 degraus que levam ao farol do Cerro Santa Ana no bairro Las Peñas; um Pelourinho equatoriano! Lá de cima vejo o pôr-do-sol e uma linda vista da cidade e do rio. Na descida, uma parada num dos vários restaurantezinhos para descanso e “baixar a temperatura”. Meu pai liga de Frankfurt; êta família viajante! Percorri outros tantos kms a pé e Atlas segue no merecido descanso pós Andes.
 Escadaria de Las Peñas com seus 444 degraus ...e o farol no topo.
Dia 08/Setembro/2007 – Sábado Ainda em Guayaquil, começo o dia de hoje pelo Museu Municipal, muito bem montado e apresentado. Depois ao Mercado de Artesanía e sigo recorrendo a cidade e descobrindo seus encantos. Foram 12 horas circulando, ufa! Também pude falar com um bocado de gente, pela Internet, em São Paulo e Floripa, além de resolver questões de ordem maior no Brasil. Percorri mais uns tantos kms a pé e o Malecón 2000 se tornou minha principal via de acesso.
Dia 09/Setembro/2007 – Domingo Dia de levantar acampamento e seguir, mas antes de sair da cidade, visito a FITO – Feria Internacional de Turismo en Ecuador, indicada por um agente de turismo. Penso em conseguir mais informações e material para seguir meu recorrido pelo país. Também passo pelo aeroporto para verificar a possibilidade de deixar o carro por lá enquanto estiver em Galápagos, e ainda faço super para abastecer o camper. E nisso se foi mais um dia. Dentro do supermercado perdi minha lista de coisas a comprar; até aí tudo bem! O pior é que nela eu tinha anotado um zilhão de outras tantas informações diversas e foi engraçado, depois de deixar as compras no carro, voltar e sair à caça do tal papelzinho; e o melhor de tudo foi encontrar. Que alegria por tão pouco! Já noite quando acabo de fazer tudo, durmo num posto na saída da cidade. Percorri hoje 13 km.
Dia 10/Setembro/2007 – Segunda Tentando pegar a estrada para a Rota do Sol, rodo uns 20 kms dentro e ao redor da cidade até achar a saída, o que não deixou de ser bom, pois conheci mais um tanto dela. Placas de sinalização? O que é isso? Pra que servem? Por aqui também ainda não descobriram a utilidade delas! Aproveito e uso e abuso do meu lado meio loiro e saio perguntando em cada bifurcação. No fim, chego ao Bosque Protector Cerro Blanco, a 16 km de Guayaquil; ou seja, andei mais dentro da cidade do que para chegar ao meu destino de hoje. No caminho, vários condomínios horizontais com belas casas num bairro que se vê em desenvolvimento nos arredores de Guayaquil. No parque, fiz uma caminhada pelo Sendero Canoa onde se podem observar diversas espécies de aves, além da flora típica dos bosques secos tropicais. Por aqui fiquei instalada na área de camping e me encantei com a arquitetura da cabana que a Fundação Pro-Bosque oferece como alternativa de alojamento. Toda feita de bambu, inclusive os alicerces. Percorri hoje 60 km.
 Na entrada do sendero
Dia 11/Setembro/2007 - Terça Como é bom dormir e acordar num lugar tranqüilo! Ainda mais depois de tantos dias agitados na cidade grande. Me pus aos afazeres domésticos e a escrita, alternando entre lavar roupa, trabalhar no computador (vulgo comp), lavar o wc químico, fotografar os bichos que apareciam e a tal cabana de bambu, “cargar” água, recolher roupa do varal e finalmente preparar o almojanta... e lá se vai mais um lindo e tradicional dia nesta vida que estou levando. Bichos avistados hoje: esquilos, iguanas, tamanduá e diversos pássaros. Atlas e eu não saímos do lugar hoje.
 Modelito da cabana em Cerro Blanco
Dia 12/Setembro/2007 – Quarta Manhã de caminhada pelo Sendero Buena Vista; é uma subidinha e tanto e com algumas alternativas de caminho pelo meio; observo alguns pássaros, se destacando um que nao cheguei a ver exatamente, mas que faz um som bastante forte ecoando por todo o bosque (ainda vou escobrir seu nome!); e do Gallinazo Cabecirrojo, que é muito parecido com um urubú só que com a cabeça toda vermelha. Tarde de reconhecimento pelo bairro Los Ceibos; boa infra! Almoço e aproveito para uma passada pela Internet, mas a lentidão do sistema me fez ficar o mínimo necessário. Também vou a um hipermercado e começo a me preparar para a ida a Galápagos que deve acontecer em algum momento; preciso de pilhas e mais memória para a câmera digital, câmera submarina, protetor solar... De volta ao parque, dou carona para os estudantes que fazem trabalho voluntário na reserva; são guias e também estão demarcando novas trilhas. Tento me conectar à energia externa, mas algo acontece; o transformador não funciona como de costume. Não chego à conclusão se o problema é interno ou externo ao camper, e com isso continuo com minha geladeira aquecendo os alimentos, ao invés de resfriá-los. Que ótimo! A chama do funcionamento a gás tem aquecido a parte de trás, mas plugada na energia externa ou com o carro em funcionamento trabalha bem. Vai entender! Percorri hoje 39 km.
 Meu QG em Cerro Blanco, pra compensar os muitos postos que paro
Dia 13/Setembro/2007 – Quinta Mais um dia no parque entre Internet, pelas informações de Galápagos que estou esperando mas não consigo abrir, escrita do Diário de Bordo, mais afazeres domésticos, observação dos animais, preparo do almojanta, que inspirada, faço tacos mexicanos. Animais avistados hoje: muitas iguanas ao redor do carro; acho que acabaram por se acostumar a minha presença e estão pra lá de à vontade. Também reaparece o hormiguero (tamanduá).
 Inspirada, fiz tacos mexicanos para o almojanta
Dia 14/Setembro/2007 – Sexta Manha no "comp" e tarde num cyber atualizando este que escrevo agora, e depois, uma dose de agrado aos ouvidos indo assistir a Orquestra Sinfônica de Guayaquil no Teatro Centro de Arte no tal bairro em desenvolvimento. Que noite gostosa! Quanto não faz a musica dentro da gente!!! E ainda com um maestro espirituoso e uma linda apresentação para completar... Que chévere!!! Como dizem por aqui para expressar algo bárbaro ou sensacional. Durmo num posto próximo ao teatro. Percorri hoje 20 km.
 Alimentando a alma ouvindo a Orquestra Sinfônica de Guayaquil
Dia 15/Setembro/2007 – Sábado Com algumas coisas por resolver em Guayaquil, para lá vou e por lá fico durante todo o dia, me deixando ser envolvida mais uma vez por esta cidade. Quando vejo o dia passou! Perambulo pelo centro, falo com a gente, sento num lugar para comer algo e observar o mundo a minha volta... Das coisas vividas hoje, mesmo não querendo generalizar, tenho mais um exemplo de como o ato de vender pode "dessensibilizar" uma pessoa, quando esta só visa o resultado final: a venda de seu produto. Por mais que tente, ainda não consegui ter uma boa relação com está atividade, necessária de alguma forma a todo ser humano, seja pela venda de seu trabalho, de seu produto, de sua imagem... Sigo experimentando! No começo da noite volto ao meu QG desta última semana: Cerro Blanco. Agora que aprendi o caminho, é pra lá que vou sempre que estiver por aqui! Percorri hoje 26 km.
 Descobrindo os cantos... e encantos de Guayaquil
Dia 16/Setembro/2007 – Domingo Ao contrario de ontem, hoje tenho um exemplo positivo de alguém que se importa com um, mesmo não atingindo seu objetivo final. Nada como um dia depois do outro experimentado o que cada um tem a oferecer. Assim, balanceamos as experiências. Aproveitando a ida até Puerto Hondo, como nas barraquinhas a beira da estrada cheias de comida típica. Fui num bolinho de yuca (mandioca) com queso e depois numa empanada de verde, feito com plátano (tipo de banana bem grande), machacado (amassado) com manteca (manteiga) y queso. Hum, booom! De volta ao bosque, aproveito o último dia por aqui para uma ajeitada no armário dos casacos que era só pó, ainda dos Andes. O apito da bateria esgotada dita o horário de parar o trabalho no comp. Cama, na bela companhia de um livro para terminar o dia, afinal, hoje é domingo! Percorri hoje 8 km.
 Iguanas do Bosque Protector Cerro Blanco
Dia 17/Setembro/2007 – Segunda Antes de voltar à estrada dou uma passada pela Internet para mais uma atualização e rumo para Playas, começando o recorrido pelo litoral do Equador. Sigo até a ponta da península, em Posorja, onde está a entrada para o Golfo de Guayaquil pelo Canal Del Morro, que leva até o porto da cidade. Vou de vagar, observando o movimento pesqueiro e as praias do caminho, que começam a se mostrar um pouco mais interessantes. Venta muito para um banho ou uma caminhada. Então, sigo recorrendo Playas que se mostrou simpática num misto de vila pesqueira com lugar de veraneio. Penso em seguir para Chanduy, mas com informações imprecisas da alternativa por terra/areia, pouco combustível e a noite já próxima de chegar, volto à vila e me instalo frente à Capitania dos Portos com a devida permissão. Deixo para amanhã a decisão de ir por terra ou asfalto. No caminho avisto uma atraente vitrine de pães e me abasteço para o lanche da noite. Percorri hoje 178 km e com isso a geladeira volta a entrar em atividade!
 Praia em Playas
Dia 18/Setembro/2007 – Terça Adivinhem por qual caminho acabo decidir seguir; alguma dúvida de que foi a terra!? Eu até que tive, ainda meio traumatizada pelo tanto de pó do Peru que limpei, mas não resisti e fui! No final era mais perto do que imaginava, apesar da presença do tal pó. No caminho visito o Museu Real Alto, que mostra o desenvolvimento da cultura e do povo do Valle de Chanduy, localizado na região mais árida do Equador, fruto da exploração desequilibrada de suas terras; hoje a agropecuária e a agricultura não são mais viáveis pela absoluta falta de água na região depois do total desmatamento, restando para a subsistência a pesca, onde 85% da população local trabalha, seja de forma artesanal ou para as empresas estrangeiras. Próximo destino: Museu Os Amantes de Sumpa, sítio arqueológico da cultura Las Vegas, desenvolvida de 8.800 a.C. a 4.600 a.C. E eu que já tinha achado muito conhecer algo de 2.000 a.C. como vi em Casma! Dizem ser este um dos assentamentos humanos organizados mais antigos do continente e dentre os restos, se destacam os esqueletos de um casal abraçado que deu o nome a este sítio. Acabadas as visitas, é hora de procurar meu canto e onde comer. Acho tudo em Salinas, um dos locais de veraneio mais concorridos no Equador, mas como estamos fora da temporada, pode-se usufruir a infra-estrutura tranqüilamente. Numa rua a beira mar, elejo meu canto para pernoite. Ali estão também outros 2 motor-homes; um alemão da Bavária e outro argentino da Patagônia. Percorri hoje 157 km.
 Cerâmicas encontradas em Real Alto, no Valle de Chanduy
Dia 19/Setembro/2007 - Quarta Pensava em andar cedo na praia, banho, escrever e cyber. O que finalmente acontece: como tive insônia não acordei cedo, mas fui andar na praia; na volta o gás acabou, então, sem banho, saio pelo gás; no caminho paro pra um bom dia e apresentação no do alemão, mas estão todos no do argentino e com mais um americano que viaja de moto, nos confraternizamos até a hora do almoço, quando finalmente saio em busca do gás e encontro; na volta banho e parada num shopping pra buscar algumas coisas; acabo não achando nenhuma, mas faço super e, antes de me acomodar, almojanto. E assim se faz o caminho, onde você pensa que é quem decide, mas as necessidades, o tempo, os encontros e desencontros... é que ditam muitas vezes. De volta ao QG, argentinos se foram; tomo uma cervejinha com o alemão. Seu nome é Bill, tem 70 anos e há 10 está na estrada. Imagina quanta historia! Os argentinos há 3 anos e um bebê a caminho; e o americano há 6 meses. Sua madrasta é a atriz que fez a boneca Emilia do Sitio do Pica Pau Amarelo no Brasil, para onde ele ruma. Durante a confraternização avistamos baleias Rorobadas saltando frente à praia onde estamos. É época delas por aqui, assim como das Francas pelo sul do Brasil. Percorri hoje 4 km.
 Estradeiros confraternizando; cada um com sua história
Dia 20/Setembro/2007 – Quinta E não é que a geladeira voltou a funcionar à gás e muito bem. Que bárbaro! Chego à conclusão que era a mistura usada no Peru que fez a diferença. Tomara! Bom, ligo o comp e me ponho a escrever um pouco, começando o dia cedo. Bill aparece com uma caneca de café quentinho; café colombiano, famoso pela qualidade e grande concorrente do nosso brasileiro. Sigo meu dia indo atualizar o site, o que costuma tomar algumas boas horas, e levando a roupa suja pra lavar. À noite preparo algo pra comer e o tal alemão se junta; bom papo, já foi várias vezes ao Alaska nesses tantos anos viajando, e aproveito pra matar um pouco da minha curiosidade das coisas de lá! É incrível como um espírito jovem é capaz de diminuir a diferença dos anos existentes entre gerações distantes! E olha que não é o único exemplo que tenho e poderia citar aqui o de outro conhecido, Bruno Nicoletti, um homem que conheci no mar, velejando pelo mundo em um catamarã acima de seus 70... anos e com uma energia pra viver de dar inveja! Mary, sua companheira, no que diz respeito aos roteiros por terra, tem a mesma disposição dele. Por pouco não os encontro viajando de carro pelo Peru vindos desde a Patagônia, mas acredito que isso se dará em algum momento na Argentina. Ohala! Percorri hoje 4 km.
 O do alemão
Dia 21/Setembro/2007 - Sexta Mais um dia que acordo pensando em escrever. Tenho tido tanto entre as experiências externas e a assimilação interna! E a escrita ajuda nesse processo, além de possibilitar a troca com outras tantas pessoas, que acabam por fazer parte disso tudo. Muito bom! Mas a realidade é que durante o café da manhã me ponho a fazer um daqueles pequenos servicinhos que ficam te rondando mas sem nunca chegar a hora dele e acabo por me inspirar na lista toda: colocar a mandala de vidro que minha vizinha Rosângela me deu na saída de Floripa (ela faz trabalhos em vidro lindíssimos!); instalar o relógio/termômetro interno e externo que comprei; a bússola; o espelho no retrovisor do carro; costurar a capa do banco; o mesmo numa das cortinas da cama; prender os porta-copos do carro que insistem em não parar com a fita dupla-face... e ainda ficou coisa pra trás no fim do dia, que pelo jeito vai ser a primeira da próxima lista que começai a se fromar novamente. No fim da tarde saio para uma caminhada na praia pra desemgripar do dia encolhida em meu diminuto canto. Escrever não chegou nem perto da realidade, que ainda passou por ir abastecer água e descarregar o wc químico. Percorremos hoje 8 km.
 Mandala e relógio instalados
Dia 22/Setembro/2007 – Sábado Acordo pensando em escrever e... finalmente escrevo! E pela primeira vez estou em dia com a escrita do Diário de Bordo. Aliás, estou até adiantada, escrevendo agora estas linhas mesmo antes de acabar este dia. Nem acredito!!! E isso significa que terei uns bons tantos dias pela frente só de vivências, depois de colocar isto no ar, claro. OBA!!! E quem sabe consigo me manter assim, em dia, se conseguir fazer um pouco disto diariamente, ou pelo menos dia sim e dia não?! Passei o dia de hoje vendo o pessoal relaxando na praia, nadando nesse marzão a minha frente... mas que também serviu de inspiração pra estas tantas linhas que escrevi hoje. São mais de 5h da tarde e estou sentada desde as 9h da manhã. Vou tratar de mexer um pouco o esqueleto. Tchau pessoal! Percorremos hoje nenhum km, mas muito em pensamentos.
 Desde meu QG em Salinas
Dia 23/Setembro/2007 – Domingo Dia pra relaxar, afinal... Depois de cumpridas as pequenas obrigaçoes, que no fim se revertem em maior conforto: descarregar wc químico, aproveitar pra completar a água e alguns ingredientes que faltam para a refeiçao do dia; vou curtir um pouco a praia aproveitando o sol e o mar! ...com uma ligeira tostadinha pelo excesso de relaxamento. rsrsrs Percorremos hoje 8 km
Dia 24/Setembro/2007- Segunda Como ainda estou vivendo este dia, só posso adiantar que terei umas boas horas de cyber continuando o que estou fazendo neste momento... Bom, por fim, fiquei realmente por conta da Internet, mas muito feliz por deixar vocês atualizados do meu paradeiro. Ainda ficaram faltando as fotos, que serao inseridas amanha. Na saída do cyber encontro um casal ao lado do carro; sao de Ubatuba, litoral de Sao Paulo, e estao seguindo com seu filho de 6 anos até o México. É sempre bom encontrar gente da terra natal quando estamos tao longe de casa! Percorremos hoje outros 8 km.
Dia 25/Setembro/2007 - Terça Dia aproveitando um pouco mais Salinas e as pessoas que conheci por aqui. Me preparo para levantar acampamento em breve. A praia é bem tranquila, parecendo uma piscina, e o mar muito claro e de um azul esverdeado. Pela manha vi os pescadores puxando a rede. Chegaram peixes grandotes, além de uma arraia filhote que voltou pra água e outros menores que serviram de comida aos pelicanos que rondavam. Uma festa só pra eles! Percorri hoje uns 5 km a pé pela praia e arredores; Atlas ficou no descanso.
Dia 26/Setembro/2007 – Quarta Dia meio “dark”; no posto onde abasteço água e combustível e desabasteço o wc químico, vejo o corpo de um cachorro degolado, mas ainda estrebuchando; deve ter sido recém atropelado na via expressa em frente e quando me dou conta do que era, já era tarde e tinha visto o suficiente para ficar impressionada por um bom tempo; saio o quanto antes do posto meio desnorteada; confesso que sou meio hipersensível a essas coisas, assim como a acidentes em estradas. Depois, trabalhando no cyber onde passei boas horas do dia de hoje, acontece uma longa briga no negócio ao lado, onde se junta muita gente e quase acontece um quebra-quebra com meu carro estacionado no meio do caminho. Termino o dia meio “carregada”, sem conseguir me isolar de forma eficiente dos acontecimentos ao meu redor. Percorremos hoje apenas 2 km.
Dia 27/Setembro/2007 – Quinta Dia light aproveitando um pouco mais de Salinas, suas praias e esse piscinão verde que é o mar a minha frente. Não conhecemos um lugar apenas através de sua história. É preciso senti-lo, prová-lo de diferentes formas, viver o dia a dia do lugar como se fosse o seu lugar. De férias, a trabalho... e por falar nisso, a tarde me dedico a mais umas horas de comp, fazendo e imprimindo num cyber meus cartões de visita que acabaram. Readapto eles a esta minha vida ambulante; não tem sentido colocar endereço fixo e telefone de casa se a forma de fazer contato agora é por celular, por e-mail e através do site; como referência, coloco também a cidade, o estado e o país de origem. Depois, passada pelo super para completar os ingredientes do jantar e... trancando o camper, quebra a fechadura. Pela hora não posso fazer mais nada hoje. Tarefa para amanhã... Percorremos hoje 6 míseros km pela cidade.
 "Piscinao" em Salinas
Dia 28/Setembro/2007 – Sexta Saio pelo conserto da fechadura, o que me toma o dia e ainda sem conseguir terminar. Algo tão simples se torna tão trabalhoso quando tudo é diferente. Não usam aqui o mesmo modelo; furação e máquina são completamente diferentes e não se encaixam na estreita porta do camper. Também tentamos trocar só o miolo, mas também tem medidas diferentes e não funciona. Enfim, o jeito foi reconstruir a mesma que estava, o que exigiu um trabalho de artesão. Por sorte caí nas mãos do Giovan. Apesar do nome, seus traços são de puro índio, um rapaz novo mas dedicado, compenetrado e interessado em resolver o problema, não se abalando com cada obstáculo que surgia nesta “pequena” mas exigente tarefa. No que depender dele terá um futuro promissor; ohala que o destino ponha a sua frente alguém que saiba reconhecê-lo! Percorremos hoje 42 km, fazendo um tour pelas “ferreterías” de Libertad em busca de peças para o tal conserto, e assim, conheci um pouco mais dos arredores.
 Iate Clube de Libertad, que ainda nao tinha visto
Dia 29/Setembro/2007 – Sábado Mais uma manhã dedicada à fechadura, mas desta vez com êxito. Além da fechadura, Giovan também conseguiu reconhecer o problema da lâmpada da cozinha que há muito não funcionava; eu tinha idéia do que poderia ser, mas não tinha conseguido chegar ao âmago da questão. Mais um ponto para Giovan! E mais uma vez saio à caça da peça, mas nada. Ok, esta eu posso concluir quando achar o que preciso, um simples interruptor. Passo no shopping para fazer super e abastecer o camper, me preparando para levantar acampamento, e descubro “lei seca” pelas eleições que acontecem neste fim de semana. Para pernoite, elejo o QG número 1 em Salinas, pois o número 3 que vinha usando está muito agitado, com um grupo de turistas curtindo o fim de semana com noitadas regadas a bebida e música 24h. Também é aniversário da amiga/irma Alice, amiga de todas as horas; junto com a Nina, outra amiga/irma, formamos um trio que ninguém segura; ou melhor, nos seguramos em todas as horas seja para o que for, rir ou chorar! ADORO vocês!!! Parabéns miga Li!!! Percorremos hoje 34 km por mais algumas “ferreterías”.  No "tour" de hoje acabei conhecendo o porto Parabéns, miga Li!
Dia 30/Setembro/2007 – Domingo Dia tranqüilo de eleições para a nova assembléia constituinte no Equador, o que tem gerado grande polêmica pela descrença do povo em seus políticos, que estarão agora em maior número no governo, fazendo aumentar ainda mais a folha de pagamentos e sem a garantia de melhores resultados. Nós brasileiros também conhecemos bem isso, não!? Há 7 anos atrás o dólar substituiu o Sucre, a antiga moeda do país; hoje se cogita a criação de nova moeda, o que também tem sido um ponto crítico em discussão. Bom, também elejo finalmente levantar âncora de Salinas, que me acolheu muito bem nesses últimos 12 dias. Aqui, aproveitando da facilidade dos serviços como cybers, bons supermercados e “gasolineiras”, além de conhecer e conviver com outros tantos viajantes, pude levar uma vida um pouco mais tranqüila, conseguindo por em dia alguns serviços acumulados e desfrutando das delícias do lugar, que em baixa temporada, era quase exclusivo. Agora sigo rumo norte pela Rota do Sol e a próxima parada será Ayangue, depois de uma visita ao aquário em Valdívia. Bill, o alemão, decide me acompanhar neste trecho e no fim do dia encontramos um lugar para pernoitar com os carros estacionados junto a uns quiosques frente à tranqüila praia. Hoje é o níver da outra amiga/irma, a Nina, dou um alô e acabo por receber as últimas notícias da festa que as duas organizaram juntas. Felicidades amigas!!! Percorremos hoje 76 km.  Fim de tarde em Ayangue Miga Nina, esta é pra voce!
Dia 01/Outubro/2007 – Segunda Caminhada na praia de manhã e pé na estrada novamente, passando por Montañita, lugarejo simples mas conhecido pela badalação e boas ondas para o surf; esperava mais! Depois Olón, que segue o mesmo destino, mas ainda tranqüila. Em seguida uma serrinha e a paisagem começa a mudar para ares mais tropicais. A partir daqui a vegetação se alterna entre bosque seco e úmido, saindo da total aridez da Península de Santa Elena. Depois de Ayampe, uma placa na estrada indicando Museu Arqueológico e Antroposófico nos faz entrar e lá descobrimos também uma “hostería” (pousada) com restaurante e área de camping frente a uma praia de mar verde esmeralda a turquesa. Saio para uma caminhada e fico fascinada pelo lugar! Pela força do mar, pelas ilhas rochosas e falésias ao redor, pelas lindas pedras multicoloridas na areia; nunca vi coisa igual! Caminho sozinha pela praia até uma das pontas e sento contemplando o incrível mundo a minha volta. Momento mágico! Percorremos hoje 59 km.
 Momento "mágico" junto à praia O incrível colorido das pedras
Dia 02/Outubro/2007 – Terça Dia de reconhecimento da região. Manhã pela área do camping e depois visita a vila de Puerto López, pueblo pesquero, onde passo por um mercado, deixo roupa pra lavar e faço Internet. Na volta, visita a vila de Salango e subida a um mirante, onde também há uma hostería de um suíço e um restaurante. Fotos e depois de um tempo contemplando a paisagem... e eis que surgem as baleias Rorobadas novamente; primeiro brincando próximo a umas pedras na entrada do canal da Ilha Salango, bem perto da praia; depois vimos saltando a esquerda, frente à praia onde estamos hospedados; que show! Ouvia-se até o estrondo delas caindo no mar! De volta ao camping, “time to coffee brake” e descanso na rede junto à praia e a uma imensa paz! Lendo o guia descubro vários lugares para se conhecer ao redor. Acho que ficarei mais uns dias por aqui... Percorremos hoje 51 km.
 Praia de Salango desde o mirante
Dia 03/Outubro/2007 – Quarta Pela manhã me pus a visitar o museu “in situ” da hostería, com material da cultura Machalilla, além de observar as peças e placas que decoram o restaurante e também contam um pouco da história local. A tarde visita ao Museu Água Branca, sítio arqueológico das culturas Machalilla, Chorrera e Manteña, que se desenvolveram na região no período entre 500 a.C. e 500 d.C. Também há um lago com águas termais sulfurosas para banhos medicinais, além de uma sauna utilizada em rituais para purificação do espírito. ois visita a vila de Machalilla, passada por Puerto López e visita ao Museu de Salango, que conta um pouco das características biológicas e ecológicas do Parque Nacional Machalilla, além de informações históricas e arqueológicas da região. De volta ao camping, preparo o jantar e cama. Amanhã é dia de levantar mais cedo. Percorremos hoje 54 km.
 Lago de águas sulfurosas em Água Blanca
Dia 04/Outubro/2007 – Quinta Dia de visita a Isla La Plata, que também é território do Parque Nacional Machalilla. Toma-se o barco pela manhã e num percurso que leva aproximadamente 1:30h chega-se à ilha, onde é feita uma caminhada de umas 3 horas observando os animais, principalmente aves como os Piqueros Patas Azules, Patas Rojas, Enmascarados, Fragatas e Albatrozes. Embarcados novamente, seguimos junto a um recife para snorkeling e retorno a Puerto López, de onde saímos. O dia começa nublado e garoando pela primeira vez no Equador, mas depois a garoa se vai e fica um gostoso mormaço, que acaba sendo perfeito para a caminhada pela ilha, que é bastante árida, apenas com vegetação endêmica de bosque seco tropical. Na volta, a possibilidade de se avistar baleias de perto; mas ficamos só na ilusão, uma vez que já é final da temporada delas por aqui. Que pena! Percorremos hoje 19 km de carro + 42 milhas náuticas de barco.
 Em Isla La Plata: Piqueros Patas Azules ...e Fragatas
Dia 05/Outubro/2007 – Sexta Comecei o dia com banho frio, pois acabou o gás. Depois rumei para Puerto López para algumas horas de Internet tentando não deixar muita coisa acumulada, além de bancos e contatos com o Brasil. Também comecei minha busca pelo reabastecimento do gás. Aqui será impossível encher o meu botijão. Tarde de visita a praia de Los Frailes, mais uma área do Parque Nacional e com horário para visitação; linda, com um mar calmo, um “sendero” de 3 km para percorrer a pé e bastante tranqüila. Por aí fico boa parte da tarde. Para janta trato de preparar frango com legumes ao curry, receita aprendida com a amiga Mônica Tsuzuki em Floripa. Percorremos hoje 66 km.
 Praia de Los Frailes
Dia 06/Outubro/2007 – Sábado Tiro o dia para reconhecimento do que deixei para trás ao sul. Volto até Palmar, entrando em Colonche para visitar a igreja de Santa Catalina, construída a mais de 400 anos pelos colonizadores espanhóis; em 1982 é parcialmente destruída pela passagem do El Niño e 15 anos mais tarde reconstruída com o esforço de um sacerdote suíço; foge aos padrões convencionais, sendo toda em madeira e muito singela por dentro; me encanto com ela e subo até o último andar, na torre, passando pelos sinos; ai que vontade de puxar as cordas e tocá-los! Na volta visito o Museu em Valdívia, fechado na tentativa anterior. Depois um “antiquário” que vende peças das escavações dos sítios arqueológicos com histórias bem mal contadas. Uma parada para beber água de côco e numa mini ferretería ao lado adivinhem o que encontro? ...o tal interruptor para a lâmpada da cozinha que tanto procurei por Salinas. Fim de tarde, de volta ao camping, limpando a geladeira; se abriram todas as garrafas long neck, fazendo aquela zona pelo camper. Faz parte do script! Percorremos hoje 140 km.
 Igreja de Santa Catalina de Colonche ...por dentro
Dia 07/Outubro/2007 – Domingo Tudo pronto para zarpar, plugo minha bateria para dar partida no de Bill e enquanto ele acaba seus afazeres... decido dar uma olhada no guincho que anda meio manhoso; acho que é falta de trabalho, até agora só passeou, além dos inúmeros dedos curiosos que vivem soltando o engate. Daqui a pouco chega o alemao, se envolve no assunto, e nessa desenrolamos todo o cabo que estava emaranhado, fuçamos daqui e dali e... ficamos com o cabo na mão, pois não conseguimos enrolar de volta. Acabo por soltá-lo do carretel e guardá-lo no único lugar possível: no chão do carro do lado do passageiro; assim, sou obrigada a olhar para ele todos os dias e tomar uma atitude a respeito! E não é preciso dizer que o dia se passou nisso e por aqui mesmo ficamos mais uma noite, com direito a descanso na rede depois do suador do dia e jantar no restaurante da pousada. Comi um arroz com frutos do mar que estava uma verdadeira delícia! Eu bem que avisei no começo que essas coisas costumam terminar assim, tomando mais tempo do que imaginávamos... mas como nessa vida que levamos a necessidade, muitas vezes, é quem dita o roteiro... Não percorremos nem 1 km hoje.
 ... o fim da história de hoje
Dia 08/Outubro/2007 – Segunda Finalmente zarpamos! Mas antes tivemos de fazer os dois carros pegarem plugados a uma van que se encontrava na hostería. Acho que ontem exigi demais da bateria trabalhando com o guincho e não recarregando o suficiente. Também consigo fazer voltar a funcionar a lâmpada da cozinha trocando o tal interruptor, sem ter de passar o dia nisso. Que alegria! Dia nublado e com garoa fina vez por outra, seguimos rumo norte. Cada um em seu ritmo porque essa de andar juntos não é coisa muito fácil. Eu paro para fotografar e desvio a todo o momento para conhecer coisas que me chamam a atenção, o que nem sempre agrada a todos e, nesse caso, Bill tem uma marcha tranqüila de viagem; então, o mais fácil é marcar um ponto adiante e cada um vai a seu ritmo. Assim, a próxima parada foi no Cabo San Lorenzo, onde fico sabendo que comprou peixe pelo caminho e sugere para o jantar, mas precisando para isso passar por um super, que acaba acontecendo em Manta, importante cidade portuária. E o jantar acaba por acontecer no estacionamento do Supermaxi, assim como o pernoite. Esse trecho do litoral é menos habitado e desenvolvido, com algumas tantas praias desertas, só mudando de figura já chegando na cidade. Percorremos hoje 129 km.
 Praias a caminho de Manta
Dia 09/Outubro/2007 – Terça Tivemos de deixar o estacionamento do super antes das 7h de la matina, mas foi só dobrar a esquina e parar ao lado do cemitério para tudo continuar como minutos antes. Mas não para mim, acostumada a acordar cedo, depois de tal movimento dificilmente voltaria a dormir. Me ponho a trabalhar no comp e a por em dia o Diário de Bordo. Para o dia ainda tenho a tarefa de conseguir gás para voltar a ter banho quente, geladeira e fogão funcionando. E o que normalmente seria mais uma tarefa fácil, acaba por tomar o fim da manhã e toda a tarde em busca de soluções para conseguir encher o botijão na engarrafadora local; eles não tem o adaptador ou algum “ingrediente” mais necessário para conseguir concluir esta tarefa não tão convencional; os sistemas são diferentes e não tenho espaço suficiente para o botijão utilizado aqui. Sem conseguir resultado até o final da tarde, seguimos para o pueblo de Jaramijó, procurando por uma noite mais tranqüila do que na cidade. Percorremos hoje 77 km entre Manta, Montecristi e o lugar de pernoite.
Dia 10/Outubro/2007 – Quarta Como tudo depende do ponto de vista em que se olha para algo, hoje pela manhã, se olhasse para a esquerda, veria algo parecido com uma favela, mas mirando para o lado direito, um lindo mar à frente junto às pedras de um molhe com alguns barcos pesqueiros ancorados; lindo! E olhando para essa vista tomei meu café da manhã e me pus a escrever mais um pouco, enquanto tentava decidir o que fazer: se voltava até Salinas para reabastecer de gás e seguir o resto da viagem pelo Equador com esta recarga ou seguir em frente rumo a Esmeraldas sem garantia de conseguir recargar na próxima envasadora, que sabe lá Deus onde será... Nada como um belo banho frio para me ajudar a decidir a voltar até Salinas com a autocondição de me impor um ritmo diferente daí em diante. Rodando mais e parando um pouco menos para repor os tantos dias em que estive mais tranquila. Para que essa imposição não sei!? Uma vez que tenho pelo menos 3 meses de visto válido para permanência no país... Também foi dia de despedida; Bill segue seu rumo e eu continuo no meu, o que não ajuda muito. Esses dias deixam sempre um “gosto de cabo de guarda chuva” na boca, assim como foi com a despedida da Pri depois dos primeiros 20 e poucos dias de viagem juntas; é preciso se reabituar a andar só, o que não é de todo mal. Como tudo, tem suas vantagens e desvantagens! Assim como andar acompanhada também. Mas a mudança se faz sentir! Así es!Percorri hoje 134 km rumo sul.
 De volta a hostería em Piqueros
Dia 11/Outubro/2007 – Quinta Como deitei tarde ontem escrevendo o “DB” (diário de bordo), hoje acordo às 8h. Ajeito as coisas e zarpo rumo a Salinas e... me deparo com moradores de La Entrada fechando a pista com pneus e iniciando um “paro” em prol de nova província; sou a primeira da fila e tento ver nisso algum significado a mais. Tento negociar minha passagem, mas sem resultado. Decido então voltar para Puerto Lopez e colocar o material do site no ar; e aí se vai boa parte do dia, como de costume nesta tarefa. Também consigo falar com o Brasil e ter noticias frescas. No meio da tarde volto a Piqueros, almoço e faço mais uma tentativa de cruze, mas nada. Volto a hostería e passo mais uma noite por lá. Amanhã rumo para o norte por força das circunstâncias. Adeus gás, banho quente e todas as regalias que provém dele... Percorremos hoje 115 km entre o vai e vem.
 Paro en La Entrada quando tento novamente ao final do dia
Dia 12/Outubro/2007 – Sexta Como garoava pela manhã em Piqueros, tratei de fechar logo o camper e entrar no carro. Com isso, esqueço de pegar as papeetes que deixei no teto durante a noite e vou me lembrar disso quando já passava Salango. Resultado: volto refazendo o trajeto da saída e perguntando a população local, mas já era tarde; se fueran! E eram novinhas! Snif! Até Jaramijó estava em terras conhecidas. Sigo adiante passando por Crucita, San Jacinto, San Clemente até Bahia de Caráquez, onde aporto hoje. Muito calor e suador. Decido dar um mergulho depois de deixar a roupa pra lavar. Parando frente à praia sou abordada por um rapaz, Santiago Lion, da agência de turismo Guacamayo www.guacamayotours.com que representa a Finca Rio Muchacho, uma fazenda orgânica muito bem conceituada por seu engajado trabalho na região. Mais tarde sou apresentada a Nicole Mears, que junto com Darío Proano-Leroux desenvolve o importante projeto da finca. Me convidam para uma visita. Combinado para amanhã. Janto a beira do rio Chone, que aqui em Bahia deságua no Pacífico, e provo meu primeiro ceviche equatoriano; o peruano era melhor, mas acho que não estava bem preparado. Durmo no malecón. Percorremos hoje 281 km.
 Curiosidades do caminho... ...colheita de cebolas.
Dia 13/Outubro/2007 – Sábado As 8:30h estou frente a agência de turismo e me junto a um grupo de equatorianos para a visita a Rio Muchacho. Atravesso meu carro no ferry e sigo a van que os aguarda do outro lado do rio. Somos 10 no total. A finca se situa no município de Canoas a 27 kms de San Vicente por estrada asfaltada, mas para chegar a sede são mais 8 kms de terra vale adentro que com as chuvas dos últimos dias estava puro barro. Enquanto estamos no plano o máximo que acontece é o carro “dançar” um pouco, mas quando aparece um decidão a coisa muda um pouco de figura; “pra descer todo santo ajuda”, como diz o ditado, mas a volta seria preocupante. Deixo meu carro à beira da estradinha junto a uma casa e sigo com o grupo numa caminhonete da finca; com corrente nos pneus e um pouco de “reza brava” chegamos bem, apesar da paura dos menos acostumados a dança na lama. Somos recebidos por Darío, um equatoriano que só de olhar já transmite paz, muita paz e serenidade. Ele vive na finca e nos apresenta os trabalhos que desenvolve por lá incluindo o turismo agro-ecológico e cultural montubio-campesino certificado; um programa de voluntariado com cursos e treinamentos sobre permacultura; intercambio cultural com aulas de espanhol; capacitação comunitária; além do projeto que mais encanta Darío, que é a Escola Ambientalista que há mais de 16 anos forma a população local através de conceitos de desenvolvimento sustentável. Um trabalho lindo de se ver!!! O qual tive a grata oportunidade de conhecer. Atitudes como esta faz você acreditar que o planeta Terra poderá vir a ser um mundo melhor algum dia, com gente mais consciente e integrada com o mundo a sua volta... Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a Fundação Rio Muchacho (e vale a pena!) visite o site www.riomuchacho.com. Dentre as atividades do dia fomos conhecer as instalações da fazenda com suas construções integradas ao ambiente e ao clima local, incluindo os wcs recicláveis aonde toda e qualquer “colaboração” é bem vinda, por isso, fique a vontade para usá-lo. Depois, almoço com ingredientes cultivados na finca; caminhada para observação da fauna e flora local e suas curiosidades; descanso na rede com bate-papo rico em intercambio cultural; elaboração de postre (sobremesa) com cacau tostado e moído por nós; e por fim, artesanato com sementes de palma. Percorremos hoje 70 km.
 Almoço na finca Rio Muchacho
14/Outubro/2007 – Domingo Dia de visita a San Isidro, povoado a uns 60 km de Bahia com grande riqueza arqueológica a céu aberto. Com Santiago conheci Estefania e sua família, que tem um pequeno “museu particular” com peças cerâmicas das culturas Valdivia, Machalilla e Chorrera, e todos muito envolvidos em atividades sociais na comunidade. Também visitamos uma pequena cachoeira numa propriedade privada e na volta, tentando subir o Pan de Açúcar, o carro enganchou num cabo elétrico arrebentando e deixando um bocado de gente sem luz. Momento de tensão! Tratamos de providenciar o reparo e fomos a um almoço criollo (típico); comi arroz com camarão e “conchas”, que acabou por não me cair bem. De volta ao camper tive de “devolvê-las” a natureza. Percorremos hoje 141 km.  Com Estefania em terras férteis de sua familia ...e na cachoeira en San Isidro
15/Outubro/2007- Segunda Dia combinado para dar um trato do “comp” que anda dando uns piripaques vez por outra; algum vírus. Atravessei com carro de volta a Bahia, pois ainda não estava recuperada do mal estar de ontem a noite, e acabei por fazer várias coisas enquanto Santiago fazia o serviço. Fui com um guia e Emily, uma americana, conhecer a Ecopapel, outra atividade desenvolvida pela Fundação Rio Muchacho. Depois almoço light e visita a Saiananda, lindo lugar com uma área particular preservada, muitos animais, frente ao mangue e com pequena infra-estrutura para receber veleiros. Aliás, a Bahia de Caráquez está cheia deles vindos de toda parte do mundo. Rodeada por um mangue, oferece bom abrigo aos barcos em caso de mau tempo. De volta a cidade Emily atravessa o ferry e segue para Rio Muchacho; ela será uma das voluntárias na finca pelo período de um mês. Depois, subida ao mirante da Cruz de onde se tem uma vista geral de Bahia; contatos com a família via internet; e um pouco de escrita frente ao Malecón. Ufa! Pra quem não estava tão disposta... Percorremos hoje 29 km.
 Bahia de Caráquez vista do mirante Do deck em Saiananda
16/Outubro/2007 – Terça Manhã tratando de finalizar o serviço no comp e visita ao Museu da cidade, muito bem montado, apresentando a arqueologia da costa equatoriana, com origem nas culturas Caras, Jamas e Coaques, povos que em sua época já apresentavam alto grau de desenvolvimento agrícola e na navegação em largas distâncias, principalmente para o tráfico da concha Spondylus, encontrada somente na costa do Equador e de extrema importância comercial. Navegavam em grandes balsas e intercambiavam com povos desde o México até o norte do Chile. No museu também pude visitar a exposição permanente de arte “Nuestros Pintores, Nuestra História”, além de uma mostra da artista Gina Maria Villacís, que através de esculturas em argila, expressa com muita harmonia as formas humanas interagindo com seu meio ambiente; de uma beleza impar! Tarde trabalhando na internet. Percorremos hoje 4 quilometrinhos.
 Escultura de Gina Maria Villacís Réplica de balsa utilizada a 8000 a.C.
17/Outubro/2007 – Quarta Mais uma manhã dedicada à computação: acabando as instalações no meu comp, resolvendo pendências no Brasil pela Internet... Almoço e trato de zarpar. Nicole acaba vindo comigo e com isso volto a Rio Muchacho, conseguindo desta vez chegar até a finca com meu carro. Que bom! Por lá, além dos voluntários Emily e Russel, havia um grupo de estudantes americanos em convivência por uma semana. Janto com Darío e Nicole e durmo frente à finca em minha própria casa. Paz total! Percorremos hoje 61 km.
 Darío, idealizador da Fundaçao Rio Muchacho
18/Outubro/2007 – Quinta Acompanho o muito bem servido café da manhã na finca entre um bate papo com Nicole, Emily, Russel e um dos estudantes americanos que é filho de uma brasileira e veio me pedir para ensiná-lo um pouco de português; pego um dicionário e um mapa do Brasil e improvisamos uma aula ao ar livre. Chevere! Experiência rica pra mim também! Com Darío vou a Escola Ambientalista e conheço um pouco da história da sua formação e seus princípios. O carinho das crianças com ele e vice e versa é lindo de se ver! Quando fala deste projeto, se transforma! Mais tarde chega um ônibus com mais um grupo de alunos; desta vez de Bahia mesmo, formandos em Turismo. Deixo-o com o grupo e volto para a finca tratando de me organizar para seguir caminho. Tenho vontade de ficar! Sigo para Jama e visito peças da cultura Jama-Coaque no gabinete do prefeito, já que o museu indicado não existe. Ilário! Por um caminho de terra beirando a praia saio no asfalto mais adiante e chego até Punta Prieta, onde descubro um camper “home-made” do proprietário do hotel, Alonso. Me convidam para jantar e estão ávidos por informações sobre fabricantes de similares no Brasil. Lugar muito bonito! Durante o jantar sou bombardeada por todo tipo de perguntas para se realizar uma viagem como a minha. Um verdadeiro inquérito! Não consegui nem saber dicas de lugares no Equador, uma vez que ele viajou durante 3 anos com um motor-home pelo país. Hoje, tentando mais uma vez conseguir gás, tive uma verdadeira aula sobre o assunto e parece que surge uma perspectiva para uma solução universal; transformar meu botijão em estacionário. Vou ficar atenta ao assunto e buscar mais informações! Percorremos hoje 89 km.
 Peças Jama-Coaque no gabinete do prefeito Filosofia da Escola Ambientalista
19/Outubro/2007 – Sexta Hoje cruzamos a Latitude 0º pela Via del Pacifico, Rota do Sol!!! Começo a manhã pensando em escrever, mas acabam surgindo várias outras coisas no caminho até o computador, entre elas um francês que esteve por aqui ontem; veio resgatar seu Land Rover que não quis pegar, pois tinha o sistema de gás combustível congelado. A todo custo se propõe a fazer a transformação do meu botijão, mas para essas coisas prefiro algo mais "profi"; tive de arranjar uma maneira gentil de dizer não obrigada. Não foi fácil! Desço com o carro até a praia e finalmente ligo o computador, mas acabando de salvar as fotos acaba a bateria do camper. Fuçando porque não consigo me conectar a rede externa, descubro o fusível do transformador queimado. Tomara que seja só isso! Fácil de resolver, mas preciso sair para comprar. Numa rede na praia sento um pouco para ler uma matéria de jornal que há tempos estou querendo. Depois trato de levantar acampamento e seguir rumo a Mompiche parando pelo fusível na primeira cidade que passo, Pedernales. Em Mompiche, tão famosa quanto Montañita, descubro o mesmo: mais fama do que realidade. A praia é realmente bonita, mas a vila é muito "hiponga” e meio largada. Caminho um pouco pela praia e arredores, janto e volto para meu QG que esta ao lado de uma pousada e frente a praia. Percorremos hoje 123 km.
 Cruzando a Latitude 0º Caprichos de Punta Prieta
20/Outubro/2007 – Sábado Caminhada pela praia de manhã e com o dia meio nebuloso decido seguir para Esmeraldas, minha próxima esperança por conseguir gás. Em Atacames sou informada que não há envazadora por lá. Então, volto para conhecer as praias que deixei para trás: o malecón de Atacames, Sua, Same, Tonchigue, Cumilinche, Punta Galera, Tóngora, Tongorachi, Cabo San Francisco, Bunche e Escondida. Elejo esta última para ficar, onde encontro uma linda prainha particular com infra para camping, hospedagem e um loteamento para casas ecologicamente corretas, além de um restaurante e simpática gente. Inspirada e finalmente conectada a rede externa, me ponho a escrever noite adentro No recorrido de hoje percebo a radical mudança do clima ao norte e ao sul de Cabo San Francisco; ao sul bastante nebuloso e úmido, mas em questão de alguns metros ao norte, quente e ensolarado; parecia que existia uma parede bem no cabo marcando a transformação a olhos nus. Percorremos hoje 193 km.
 Praia de Mompiche ...e Sua
21/Outubro/2007 – Domingo Um mico pulando sobre o camper me acorda pela manha. Levo um susto! Aproveitando a energia externa me ponho frente ao “comp” mais uma vez e trato de organizar as fotos do site que estão pendentes, mas logo chega visita e a tarefa é interrompida por agradável “charla” (conversa) com Mary, quem me atendeu na chegada ontem. Combino o almoço, que será Pescado Acocado, que vem a ser peixe temperado com coco acompanhado de arroz e patacones (rodelas de plátano verde fritas e achatadas; ficam mesmo parecendo moedas!) Aliás, o plátano acompanha a maioria dos pratos típicos servidos no Equador, preparado de diferentes maneiras. Trabalho até a hora do almoço e depois vou conhecer a praia em frente que até então não tinha visto. Linda! Com interessantes formações rochosas que com a maré baixa formam inúmeras prainhas. Saio caminhando e descobrindo seus encantos. Aqui, deferente de Piqueros onde me encantei com o colorido das pedras, vejo milhares de pequenas conchinhas multicoloridas e de todos os formatos; de repente vejo um aglomerado delas e quando chego mais perto para fotografar começam a se mover e a se espalhar pela areia. A maioria está ocupada por seus “donos”, mas na dúvida é só pegar e de imediato se escuta um pequeno estalo, que é o molusco se escondendo dentro dela. Me divirto catando algumas vazias! Noite de bate-papo no restaurante com Mary, Jill, e Judith, todas viajantes e com histórias para contar! Uma delas é a proprietária, uma senhora americana. Estou enamorada deste lugar e decido ficar mais uma noite. Hoje não percorremos nenhum km; dia de descanso para Atlas também.
 Praia Escondida Pescado Acocado e lindamente servido!
22/Outubro/2007 – Segunda Acordo pensando em dar um mergulho no mar, mas acabo só caminhando e catando mais algumas pedras e conchas de recuerdo. Banho e levantar acampamento, mas não antes de abrir minha casa para mais uma seção de visitação. Ta virando rotina! Sigo conhecendo Union de Atacames, Esmeraldas, onde descubro sim uma envazadora, mas mais uma vez não consigo encher o botijão. Sinto que por não ser o mesmo sistema daqui, há um certo receio em “llenar”. Ok, sigo com banho frio! Na cidade reviso e-mails e ligo para Quito; confirmado tour a Galápagos de 28 a 04 próximos. Então, tenho de acelerar o passo para estar por lá na quarta-feira. Rumo para San Mateo, Rio Verde, Las Peñas e La Tola, onde procuro por informações para visitar o sitio arqueológico Las Tolitas, mas decido por não ir. Janto e durmo, a convite dos proprietários, junto a um restaurante em Las Peñas, lugar mais acolhedor. Outra vez as "conchas" do arroz misto não me caem bem. Acho que tenho algo pessoal por resolver com elas! Percorremos hoje 251 km.
 Proprietárias do restaurante em Las Peñas
23/Outubro/2007 – Terça Dia de radicais mudanças climáticas. Acordo na praia com clima mais seco, cruzo a floresta com muita umidade no extremo norte do país, para chegar a tarde nos Andes, em Ibarra, onde faz muito frio a noite e chove. Pensava em passar por San Lorenzo, na fronteira com a Colômbia, e chego a 15 km de lá, mas quando vejo tanta gente armada pelas estadas e nas vilas cercanas, na bifurcação acabo por escolher subir para a montanha. Fronteiras costumam ser lugares mais inóspitos, com “vantajeros” intercambiando produtos entre os países. Aqui ainda pior, com o movimento terrorista colombiano da FARC atuando na região, o que explica o armamento que vejo. Ademais, a marinha andou atuando neste final de semana em San Lorenzo, intervindo no contrabando de combustível para a Colômbia via barcos, e a Policia Nacional localizou cerca de 3,7 toneladas de droga enterrados numa fazenda, ou seja, momento meio turbulento, então, pra que vou me meter no meio disso agora! Deixa a experiência pra quando eu for cruzar a Colômbia, na próxima etapa do projeto, coisa que gostaria muito de fazer, mas num momento mais calmo de preferência. Apesar do terrorismo, que hoje está mais contido e concentrado na região da selva, o país tem muito a oferecer culturalmente, além de sempre ouvir que o povo é extremamente acolhedor e receptivo. Veremos... Eureka!!! Aqui finalmente consigo gás e com ele chega o frio. Sou super bem atendida na planta envazadora da Agip onde um engenheiro vem analisar o sistema do meu botijão, levam os dois, o grande e o pequeno de reserva, e voltam com eles cheios e ainda não querem cobrar nada. Eu pagaria o dobro se fosse necessário. Não sei nem como agradecer! Obrigada pessoal!!! Na Ford em Ibarra marco revisão do Atlas para amanhã cedo e o levo para um banho. Desde o último dia no Peru não vê água. Assim fica mais fácil para o pessoal trabalhar nele. Passo num super e me instalo no posto ao lado da concessionária. Amanhã já estou por aqui. Percorremos hoje 229 km.
 Que tal o "farwest"!? Fim da linha pelo litoral do Equador
24/Outubro/2007 – Quarta Noite bastante agitada com o zum zum zum do posto. Não foi uma boa opção! Me levanto e decido ir conhecer melhor a Laguna Yahuarcocha, Lago de Sangue em idioma Quíchua, pois aí ocorreu uma sangrenta batalha pelos índios Caras ante as investidas Incas. Apesar do contraste, há também uma pista automobilística de alta velocidade e encontrei muita gente caminhando e de bike se exercitando. As 8:15h estava frente a concessionária, que só abria 15 minutos mais tarde. Nada de sério a fazer; revisão de rotina com troca de óleo e filtros, reaperto na suspensão, verificação dos freios e rodízio dos pneus. Acabada a revisão ligo para a agência confirmando minha chegada e sigo direto para Quito, e como na entrada em Lima, acerto na mosca, a duas quadras do alvo. Desta vez não era de noite, mas no rush-hour. Ligo para a agência, mas preferem deixar para amanhã os finalmentes. Escolho um posto 24h bem próximo e aí me instalo para a noite, com o devido “permiso”. Percorremos hoje 157 km.
 Laguna Yahuarcocha, que tal!?
25/Outubro/2007 – Quinta Dia negro! No primeiro horário estou na agência e recebo a noticia de que meu lugar foi vendido. Fico em estado de choque e tentando entender o que aconteceu! Me põem a espera da resposta final o dia todo e isso me desnorteia totalmente.! Que falta de responsabilidade! De profissionalismo! De... Estamos em contato permanente há um mês e meio, e eu aguardando que se dê o primeiro tour de 8 dias realizado com o barco operado por esta agência. Já haviam me cancelado a reserva da semana anterior e agora essa!!! Parece que me enganei; Galápagos Vision não é uma boa alternativa pessoal!!!!!! Por conseqüência parece que tudo caminha igual: compro uma calça que não era exatamente o que eu precisava; almoço num restaurante “errado” com porções mínimas; compro CDs lentos; não consigo finalizar nada do que preciso fazer por aqui; ou seja, dia jogado fora! Estou irada!!! Percorremos hoje 5 km pela cidade sem resolver coisa alguma.
 ...tentando pensar em coisas lindas..
26/Outubro/2007 – Sexta Tratei de cuidar do Atlas pela manhã. Esse sim não me deixa na mão! Alinhamento e balanceamento. Volto ao centro e a agência ainda com a esperança de alguma boa nova, mas tudo exatamente na mesma. Saio por resolver outras coisas que caminham um pouco melhor hoje e volto à agência mais uma vez. Agora para falar com a proprietária. É um diz que diz com muitas contradições e o famoso jogo da “batata quente” quando a coisa aperta. Demoro para reagir e as 21:30h ainda estava por lá... E nada! Percorremos hoje 63 km.
 Atlas recebendo tratos
27/Outubro/2007 – Sábado Saio cedo do posto e trato de adiantar algumas coisas pela Internet enquanto espero as agências abrirem; a daqui e a de Guayaquil para averiguar alguma outra possibilidade. Até 10:30h e ninguém na agência daqui, apesar do Marcelo Armijos ter me dito que abririam. Mais uma! Decido finalmente sair da cidade e dar um tempo a tudo isso. Volto para Otavalo, nas montanhas, onde acontece todos os sábados uma famosa feira indígena com comidas e “artesanías” típicas. De enlouquecer! Você não sabe se olha, se compra, come ou fotografa. Tudo muito colorido, ótimo para alegrar um pouco meu dia! No fim da tarde saio para a Laguna Cuicocha, na Reserva Ecológica Cotacachi-Cayapas, uma extinta cratera convertida em lagoa com duas ilhas ao centro, “conos” vulcânicos secundários. Ao fundo o vulcão Cotacachi com seu pico nevado. Não preciso nem falar mais nada, né pessoal! Lindíssimo!!! Numa estradinha ao redor encontro uma aconchegante “hostería”, onde acabo jantando uma deliciosa truta e encontrando boa gente. Seguimos proseando ao redor da lareira até tarde. Foi muito bom! Percorremos hoje 131 km.
 Pico nevado do Vulcao Cotacachi desde a hostería
28/Outubro/2007 – Domingo Noite bastante fria, mas dentro do sleeping-bag e com mais um cobertor por cima, durmo muito bem! Acordo cedo me remoendo ainda com o tema Galápagos. Deveria ter sido realmente dura a ponto de uma atitude eficiente ter sido tomada. A seguir cenas dos próximos capítulos para a próxima semana... Dou uma organizada geral para mais um tour de visitação ao camper. Acho que vou começar a cobrar. Que tal!? Depois saio para uma caminhada por uma trilha da hostería que leva até a laguna. Que maravilha, que coisa linda!!! Descarrego mais um pouco. De volta ao camper, me ponho a escrever pensando em começar a por em dia novamente o “DB”, e não é que consigo ter tudo escrito até a noite. Janto novamente na hostería e boa noite!
 Laguna Cuicocha, na cratera do vulcao
29/Outubro/2007 – Segunda Mais uma noite na Hostería Los Pinos de Cuicocha, lugar tranqüilo e agradável, tudo o que eu precisava antes de começar a próxima semana, ou melhor, o próximo “round” com a agência de turismo. Não dou para esse tipo de coisa. Me desgasta horrores!!! Levanto acampamento e desço para conhecer Cotacachi. Caminho pela pequena cidade com cara de interior, paro numa “panaderia” e experimento coisas gostosas, visito o “Museo de Las Culturas” onde aprendo mais sobre os rituais dessa gente da terra e da serra e... ligo para a agência em Quito, onde acaba toda a poesia; confirmada a próxima reserva de 08-15/11; precisam do número do meu passaporte e eu da conta para depósito que eles não podem me informar agora; tenho de voltar a ligar mais tarde... e com isso sigo pendente deles e sem poder desligar do assunto. Sigo para Santo Antônio para tentar conhecer os “talleres” (oficinas) dos artesãos em madeira, mas encontro tudo fechado. Segunda costuma ser dia de descanso para quem trabalha com turismo, Luciana, não aprendeu ainda! Sigo para a Ford em Ibarra para mais um ajuste no freio que ainda não está 100%. Volto para Otavalo e tento conhecer as Lagunas de Mojanda, mas na subida da montanha uma forte cerração baixa e não é possível ver mais nada. Retorno e busco meu canto para pernoite, que acabo encontrando junto ao Lago San Pablo, na Hostería Puerto Lago. Janto no restaurante que fica sobre a água e me vem algumas idéias para um eventual fim de ano por aqui. Mais dois telefonemas para a agência até o fim do dia e ainda não consigo o número da conta para o depósito. Isso tá me cheirando mal novamente... Com tanta agência operando tive que cair justo nessa! Mas como turista, é um tiro no escuro. Segui a indicação de um guia que comprei. Percorremos hoje 80 km.
 La gente de la sierra ...em Cotacachi
30/Outubro/2007 – Terça Acordo decidida a voltar para Quito e resolver o assunto com a agência. Não agüento mais ficar com isso pendente. Como com eles não consigo solução e já abusaram demais, vou ao Ministério de Turismo apresentar uma queixa e tratar de buscar outra alternativa. Por ser começo da alta temporada a solução não vem tão fácil, mas não vou do Equador sem conhecer Galápagos depois de todo esse perrengue, por favor! Passo o dia nisso, entre burocracias e internet na busca. Na agência sem a menor consideração! Sigo sem poder fazer o pagamento, o que significa não ter confirmação nenhuma... No fim do dia consigo resolver pequenas outras coisas pelo centro e me ponho no posto de sempre em Quito. Dia stressante!!! Percorremos hoje 119 km.
 Vulcao de Imbabura desde a estrada
31/Outubro/2007 – Quarta Outro dia burocrático na Defensoria del Pueblo pelo mesmo tema: agência de turismo! Com eles tento agilizar a negociação para fechar o próximo tour, que não posso pagar como o combinado novamente, que incrível!!! E vocês devem estar se perguntando por que insisto tanto por este caminho? Vou explicar: primeiro porque já se acumularam N desconsiderações por parte desta gente; segundo porque não consegui outra possibilidade até o momento e “me gustaría mucho” conhecer este destino depois de tudo que já esperei por aqui; terceiro porque não estou aqui como simples turista, mas como uma cidadã, mesmo que do mundo, com direitos e deveres diante das situações que podem ocorrer em qualquer lugar e que nos cabe tomar as devidas atitudes e não somente reclamar; tenho isso como parte da experiência a que me propus a viver, e que agora me toca no Equador, o que não deixa de ser um “bom” momento para ver como as coisas funcionam (ou não?) em outro lugar, então... sigo com isto como se estivesse em meu próprio país, apesar de não ter experimentado nada parecido antes. Ou talvez nao dado tanta importância! Outro dia DAQUELES e o próximo tour está cancelado por parte da agência. Me mandam o número da conta junto com um e-mail de cancelamento, que tal! E como na agência não quiseram receber a carta de denuncia enviada pela Defensoria tenho de aguardar até 8 dias, prazo oficial, para apresentação de uma defesa por parte do acusado mediante próximo aviso enviado hoje mesmo pelo correio. Assim, trato de sair da cidade novamente, se não vou explodir! Rumo para Salinas parando para dormir pelo caminho... Percorremos hoje 311 km, já que dirigir pra mim é terapia!
 A beleza das coisas simples!
01/Novembro/2007 – Quinta Acordo, ou melhor, praticamente não durmo com o movimento do posto, principalmente depois de ver um bêbado fazendo um carro pegar no tranco e quase batendo no meu! Não deu tempo nem de gritar só pude assistir “os finalmentes” que por pura sorte não aconteceu. Saio cedo e sigo pela esburacada estrada... Mas pessoal, acreditem, Equador vale a pena, ok! É verdade!!! Apesar de todos os comentários negativos! Tinha alguma expectativa de rever conhecidos em Salinas, mas nada. Aproveito que o abastecimento de água aqui é garantido e tomo um longo banho. Também levo roupa para lavar, verifico e-mails, almoço frente a praia e a uma marina com vários veleiros ancorados (paisagem que gosto muito!), visito o Museu Naval, entre outras tantas coisinhas. Bastante cansada entre os acontecimentos da semana, a puxada da viagem e a noite mal dormida, vou para a cama cedo e capoto no QG local número 1. Aqui tive 3, para quem se lembra... Percorremos hoje 305 km.
 Tesouros no Museu Naval Fim de tarde em Salinas
02/Novembro/2007 – Sexta Próximo destino: Cuenca. Na subida da serra muito nevoeiro, mas acima das nuvens o tempo estava mais bonito que na praia. Céu azul e temperatura bastante agradável durante o dia. No caminho passo por El Tambo, Ingapirca e Azogues, driblando muitas vezes a multidão nas ruas em comemoração ao “dia dos mortos”. Aqui é tradição os indígenas visitarem os cemitérios com seus melhores trajes e comerem em cima das tumbas de seus familiares. Em Cuenca passeio pelas ruelas do centro histórico com lindo casario colonial. No fim do dia decido ir dormir no Parque Nacional de Cajas, localizado muito próximo à cidade. Na subida dou carona para um guarda-parque; a paisagem é impressionantemente linda!!! Sigo até o refugio da Laguna Toreadora, a 3.979m de altitude, e preparo um macarrão ao pesto acompanhado de um vinhozinho para ajudar a driblar o frio e comemorar tanta beleza! Percorremos hoje 450 km.
 Driblando a multidão
03/Novembro/2007 – Sábado Noite mal dormida pela grande diferença de altitude no mesmo dia. Tinha saído do litoral, me esqueci disso! Deveria ter dormido numa base mais abaixo. Quase 4.000m fazem diferença para o organismo. Qualquer montanhista sabe disso, mas a leiga aqui... Os sintomas foram os mesmos de quando Pri e eu chegamos nos Andes: digestão difícil, dor de cabeça, dor no corpo e sensação de estar sob pressão interna, o que de fato acontece. Trato de descer para aclimatar. Pela manhã, na mesma base, vejo outro senhor sendo transferido para altitude mais baixa. Sigo meu dia rumando para o sul. É incrível como em questão de 2 horas a paisagem muda tanto neste país! O território é pequeno, mas com uma diversidade muito grande de clima e relevo. Saí das verdes montanhas dos Andes, passando por um árido e inóspito cânion, para ir ver vegetação tropical em altitudes mais baixas. Acabo por chegar ao Bosque Petrificado de Puyango e dormindo na área de camping do parque, onde uma gurizada inocente brinca despreocupada do mundo. Percorremos hoje 366 km.
 Amanhecer no Parque Nacional de Cajas
04/Novembro/2007 – Domingo Saio para a visita ao bosque petrificado no primeiro horário, para que o sol não “pegue” depois. Juntam-se a guia Miriam e a mim uma família recém chegada. A visita leva quase 2h, onde percorremos diferentes “senderos” avistando inúmeros pedaços de troncos petrificados, além de algumas árvores gigantes de outra espécie ainda vivas. Estima-se que a parte petrificada seja somente o miolo do tronco, que é a parte mais dura e que teoricamente resistiu às altas temperaturas e pressões a que foi submetida. Pelos troncos maiores encontrados se pode ter uma idéia do tamanho que eram originalmente estas Araucárias. Também se observa a “digital” perfeita de folhas incrustadas em algumas pedras quando são molhadas, trabalho para nossa experiente guia, moradora da região. Na volta tomo água de coco, banho e sigo meu caminho rumo a Vilcabamba, na serra de novo. Pensava em fazer outro caminho, mas conversando com policiais rodoviários, decido seguir o caminho mais convencional e menos empoeirado e esburacado. Chego já escurecendo e trato de ir jantar antes de me recolher. Encontro uma creperia na praça central. Como um crepe de verduras com queijo e outro de chocolate com sorvete, huuum! Durmo a beira rio. Percorremos hoje 317 km.
 Tronco petrificado Árvore gigante
05/Novembro/2007 – Segunda Até teria ficado um pouco mais por Vilcabamba, mas irrequieta decido pegar estrada e chego em Loja, capital da província de mesmo nome, cidade muito bem cuidada e com mais um interessante centro colonial. Na praça frente à igreja de San Sebastian acontecia uma manifestação em prol dos artesãos da região. Muita gente reunida, mas de forma organizada, incluindo apresentações folclóricas e a presença de escolas com alunos e professores. Passeio pelo mercado municipal, trato de provar umas rosquinhas típicas e comprar umas frutas. Na igreja, deixo uma velinha acessa marcando minha passagem. Seguindo sugestões vindas de diferentes fontes, passando por Saraguro decido entrar para conhecer. Pueblo andino remanescente dos índios Saraguro, hoje é um importante centro cultural e étnico e com infra-estrutura oferecida pela comunidade local. Numa das lojinhas conheço a Sra. Angelina, que com a história de sua blusa, com bordado em cores fortes feita pelo marido nos moldes do que ela gosta e não do que dita a tradição, me cativa. Além de comprar algo, fotografo os dois juntos. Que linda dedicação! E foi presente de aniversario! Circulo um pouco pelos caminhos da região, mas... lembra que hoje é segunda feira e tudo está fechado! Chego a Cuenca bem no rush-hour, bom pra me fazer lembrar um pouquinho dos idos tempos em Sampa. Urg! Durmo na subida para Cajas, mas na parte baixa desta vez. Percorremos hoje 289 km.

06/Novembro/2007 – Terça Dia percorrendo Cuenca a pé. Fui ao “Museu de Las Culturas Aborigenes”; joalherias tentando encontrar algo simples e delicado com concha Spondylus, valiosa moeda no passado; agências de turismo seguindo minha busca pelo tour a Galápagos; igrejas; Museu do Chapéu com a história dos Panamá Hats, que você pensa serem do Panamá! Num café sento e curto um momento de relax e depois sigo minha peregrinação passando por um caixa eletrônico; vendo trabalhos artesanais de qualidade fáceis de se encontrara nesta cidade. Por sorte não tenho a menor possibilidade de levar coisas do tipo cerâmica, sem que se transformem em cacos pelo caminho. Assim, não tenho nem que pensar duas vezes. Só alimento a alma olhando tanta coisa bonita e quem sabe me inspirando para algo no futuro! E me sentindo como na Espanha, entre a arquitetura local e os horários de funcionamento do comércio que acontece entre 9h e 10h até 12h e 13h, e depois das 15h e 16h até mais tarde da noite, além do acento no sotaque.. E assim se vai o dia... Volto para janta e pernoite no mesmo lugar de ontem, Restaurante Las Cabañas. Percorremos hoje 25 km.
 Cuenca: uma linda cidade! Vai um Panamá Hat aí, pessoal!?
07/Novembro/2007 – Quarta Dia de recorrido pelas ruínas de Cojitambo, fortaleza Inca de pedra por onde passa o caminho del Inca o Capac-Ñan e de onde mantinham o controle do movimento na região por sua estratégica localização no topo de uma montanha. Depois sigo para Deleg, onde acontecia outra manifestação cívica. Desta vez não sei bem porque. Mudando de lado na estrada, sigo pelo caminho que leva a Gualaceo, Chordeleg e Sigsig, roteiro conhecido por suas tradições, artesanías, natureza e história. Me deleito com as paisagens, vendo o artesanato em palha “toquilla”, a mesma usada na confecção dos Panamá Hats que aqui, além dos chapéus, criam coloridos adornos, cestas e bolsas. Em Chordeleg o forte são os trabalhos em filigrana em ouro e prata, mas são tantas as joalherias e em sua maioria apresentando os mesmos trabalhos que acaba por virar “carne de vaca” e perder parte de seu encanto. Em Sigsig me distraio procurando uma associação indicada para conhecer o trabalho em toquilla e acabo por não ver as inscrições rupestres nas Cuevas de Chobshi, único sitio arqueológico do gênero no Equador datado de mais de 10.000 anos. Sorry pessoal! Falha minha não poder mostrar isso pra vocês!!! No fim da tarde volto ao QG para mais uma noite tranqüila, principalmente depois que um grupo se vai com o som dos carros a todo volume. Percorremos hoje 204 km.
 Ruínas de Cojitambo Pelos vales do caminho
08/Novembro/2007 – Quinta Pensava em dar mais uma olhada numa Fundação que me indicaram no centro de Cuenca e quem sabe comprar um autêntico chapéu panamenho pra mim, mas acabo por não conseguir nem uma coisa nem outra e entro num cyber decidida a dar um cheque-mate no assunto Galápagos que continua pendente, acredtitam! Se nas agências tá difícil uma solução pelo grande movimento ocorrido neste mês de novembro; pensar que “aquela” agência vai resolver algo é acreditar em Papai Noel. Então, decido fazer um rastreamento por conta própria e... acende uma luz no fim do túnel. Duas até! Foi o dia inteiro nisso sentada frente a um computador, mas a solução parece que chegou. De qualquer forma a decisão final ficou para amanhã de manhã, apesar de não querer mais pensar no assunto nem por um minuto. À noite volto ao conhecido QG para janta e bom bate-papo com o senhor proprietário que me indica para conhecer as cidades históricas de Piñas, Zaruma e Portovelo, está última forte centro de exploração do ouro com atividades até os dias de hoje. Quem sabe na saída do Equador consiga conhecer. Fica meio no caminho... Percorremos hoje 28 km.
 Meu QG em Cuenca
09/Novembro/2007 – Sexta Começo bem o dia, fechando FINALMENTE o tour a Galápagos! Tenho até medo de falar no assunto antes de se concretizar, mas estou bastante contente com a escolha!!! Vocês não tem idéia do alivio que sinto! Como me frustrava a possibilidade de não conseguir concretizar essa etapa da viagem... Também falo e vejo minha cunhada Mônica e meu sobrinho Thomas, que em seus 2 anos e tanto muda a cada mês que passa. Bendita internet para ajudar a encurtar distâncias! Contente, também corto cabelo e começo a por em dia meus super atrasados e-mails, além de resolver outras pequenas pendências. Volto tarde ao meu QG e desta vez só para dormir e zarpar amanhã cedo. Percorremos hoje 16 km.
10/Novembro/2007 – Sábado Decido voltar ao Peru. Com isso renovo meu visto e a permanência do carro no Equador, que iria vencer as vésperas da saída ao novo tour; tento reencontrar conhecidos com quem falava de uma possível passagem de ano juntos; e curtir um pouco desse trecho do litoral peruano que pouco aproveitei na subida para o Equador. É o trecho mais interessante! Também quero relaxar um pouco do stress passado, que deixou marcas, e dos dias na cidade grande. Por aqui na montanha tem garoado muito e neste trecho do litoral dificilmente chove, tamanha a aridez. Então, é pra lá que eu vou... Fui!!! Antes de sair de Cuenca trato de fazer os devidos abastecimentos e desabastecimentos de água, wc e gás. Este último me toma a manhã, mas acabo por conseguir depois de uma peregrinação. Assim, saio realmente tranqüila! Escolho um caminho diferente dos já feitos até agora e cruzo o Parque Nacional de Cajas por uma estrada bem linda, mas com muita neblina pelo caminho. Que pena! Os guarda-parques já me conhecem e saludam. Na imigração adivinhem quem da minha saída do Equador? O mesmo policial que não queria me dar a entrada. Que ironia! Mas dos “propineiros” da fronteira consigo me livrar de todos, ou quase todos, o que não é fácil! De volta ao Peru volta também todas as sensações do que vivi por aqui. Que curioso! Sigo até Los Órganos, onde paro para pernoitar em Punta Veleros. Boa noite! Percorremos hoje 478 km.
 Cruzando Cajas
11/Novembro/2007 – Domingo Noite meio agitada com o entra e sai no condomínio em frente e um “tanso” que não sabia dirigir tentando manobrar uma Pajero ao lado do meu carro. Mais um! Pela manhã passeio por Los Órganos e Mâncora reconhecendo a região e decido seguir até Colán, meu ponto mais ao sul nesta empreitada. Chego por lá no final da tarde, depois de recorrer Cabo Blanco, que vejo mais lindo e com tempo mais aberto desta vez; Talara, que não tinha entrado para conhecer, mas que também não fez muita diferença agora; Lobitos, que quase me perco em meio aos desvios e ao deserto que é essa região e quando chego lá encontro uma cidade fantasma, restos do que foi um dia uma colonia inglesa explorando petróleo. Hoje é uma área militar que ocupa algumas poucas casas da antiga vila, enquanto o governo continua a exploração do petróleo. Vejo alguns turistas fazendo kite-surf e uma linda, mas desolada praia. Chegando em Colán vou direto a um ceviche misto de pescado na já conhecida senhora. Ai que delicia! E me refugio no Playa de Colán Lodge para uma linda noite de sono... Tô meio baleada! Percorremos hoje 295 km.
 Iglesia San Lucas de Colán, primeira construída pelos espanhóis no Pacífico Sul
12/Novembro/2007 – Segunda Começo aqui o processo de “recomposição”: acordo mais tarde, tomo café e... volto pra cama para ler. Mais tarde levanto, tomo banho e vou para outro café da manhã no hotel. O lugar é bastante agradável, junto à uma praia de areia branquinha e fininha, com redes estendidas sob quiosques e coqueiros ao redor... assim, bem paradisíaco, apesar do lugar não ostentar luxo demasiado, apenas caprichos... Penso em ficar, mas decido por ir e escolho finalmente Punta Sal para meus dias de descanso. No caminho cruzo com um caminhão-casa alemão, de quem já tinha ouvido falar na região. Enorme! Como aquele Suíço em Cuzco. Também “torpedeio” com minha cunhada Mô pelo seu aniversario que foi ontem e acabei por não fazer contato. Falha técnica, sorry mais uma vez! No caminho vou ouvindo boa música... Em Mâncora almojanto, dou uma olhada nos e-mails e finalmente chego ou meu posto de controle para os próximos dias, frente à praia, num terreninho planado e com decida “particular”. Falo e me apresento ao novo vizinho, que me da às boas vindas. Seu nome é William, muito prazer! Estou de olho neste lugar desde a subida para o Equador e parece que ele estava me esperando. Encontro aqui exatamente o que procurava: paz e tranqüilidade, bom tempo e linda paisagem! Uma caminhada pela praia descalça curtindo um vermelho por do sol, banho e cama. Percorremos hoje 217 km.
Lindo fim de tarde
13/Novembro/2007 – Terça Demorei um pouco para dormir com muitos pensamentos me distraindo, mas depois tenho uma noite maravilhosa de sono e sonhos... Depois do café me ponho a fazer minha unhas da mão, completamente roídas como há muito não via; corto a dos pés, que ainda não consegui roer (ainda bem!) e sigo o dia indo trabalhar no comp, escolhendo as fotos do Diário já escrito mas não publicado. As 17h e pouco tenho esta etapa cumprida e decido dar um pulo em Mâncora para colocar no site, além de jantar algo que estou com fome! O jantar não foi lá essas coisas, mas as 22:15h tenho publicado o material do dia. Oba! Volto para Punta Sal cruzando uma noite escura e super estrelada, boa para uma fogueira na praia em boa companhia... Percorremos hoje 48 km.
 Punta Sal
14/Novembro/2007 – Quarta Outro dia zen! Trabalhei no comp o dia todo, dando uma olhada e saindo lá fora de vez em quando... fiz meu almoço... pensava em tomar um solzinho... mas deixando para a tarde, ele acabou se escondendo e ficando uma brisa meio friazinha para isso. Continuei nos meus afazeres tranquilamente... e quer saber, nem vou sair do lugar hoje. Amanhã é outro dia e faço o que ficou para trás hoje. Aqui continuo escrevendo... e já são 7h da noite... Nao percorremos nenhum km hoje.
15/Novembro/2007 – Quinta Pela manhã acabo de escolher as fotos do DB. Depois praia (em frente), sol e mar!!! Além de uma caminhada. E mais exóticas pedrinhas para a “coleção” que vai se formando. Almoço em Mâncora e outras 3 horas e meia num cyber atualizando o site. Missao cumprida pessoal, curtam!!! Passeio pelo malecón (calçadão) xeretando o que se apresenta nas barraquinhas, como algo e vou atrás de água para o camper, que nestas áridas paragens não é fácil. Acabo conseguindo “comprar” no mesmo posto da outra vez, aliás única possibilidade e que depende de algum lero e uma pequena propina para alegrar a rapaziada. Sigo para Los Órganos e me acomodo frente à Punta Veleros. Quero provar a praia daqui amanhã! Percorremos hoje 39 km.
 Meu QG em Punta Veleros
16/Novembro/2007 – Sexta Mais um dia de sol e praia, justo o que estava procurando! Depois de alguns cuidados femininos básicos para poder me apresentar decentemente, saí caminhando pela areia branquinha e fininha. Mar calmo, lindo e limpo! Caminhei para o sul, quase dona da praia, cruzando raramente com outro alguém. Pelo caminho fui achando pedaços de concha madrepérola de variadas cores e algumas fui acrescentando a minha caixinha de achados. Tentei tomar sol, mas o vento me deixava à milanesa, então, outro mergulho. Caminhando pela praia fui almoçar. Na volta siesta, praia novamente, mas agora acompanhada de um cão fila da casa em frente, banho e Mâncora por uma salada de frutas e um pouco de gente, antes de voltar ao QG. E boa noite! Percorremos hoje 29 km.
 Ponta sul de Los Órganos
17/Novembro/2007 – Sábado Dia de afazeres no camper: liberei a caixa com as peças do carro, reacomodando no “compartimento da oficina”, para acomodar melhor as pequenas lembranças que venho catando e comprando pelo caminho; depois foi a vez de costurar o velcro nas almofadas do sofá e pregar a outra metade na estrutura de madeira, assim, não tenho mais de catá-las no chão cada vez que paro o carro. Ufa! Que alívio! Coisa tão simples, né! Comi algo e dei um pulo na praia, mas já ventava demasiado. Então, banho e almojanta no restaurante já conhecido da primeira visita por aqui, na subida para o Equador. Conversando com os proprietários aprendo mais uma: eu pensava que o fenômeno El Niño, quando passava por aqui, fazia estragos do mar em direção a terra, mas hoje aprendo que na verdade o mar até chega a subir além do normal, mas que o pior vem das montanhas, com toda a água que desce dos Andes por causa das fortes chuvas que ocorrem lá em cima; se formam verdadeiros rios nas “quebradas” que outrora não existiam. Vivendo e aprendendo! De volta ao mesmo canto, durmo como um bebê. Que delícia de lugar! Ah! Já ia me esquecendo! Hoje, vi baleias saltando no mar bem em frente!!! Mãe e filhote. Percorremos hoje 28 km.
 Charmosas construções de Punta Veleros
18/Novembro/2007 – Domingo Dia d +! Sol, praia, mar, sessão de fotos e gente curtindo o domingão. Aqui, quando a praia está cheia deve ter umas 25-30 pessoas, que tal! Alguns na água surfando ou fazendo kite-surf e os demais relaxando. Paz total! Caminhando por areias já conhecidas, acabei por encontrar um pelicano com uma asa quebrada e topar com um baita lobo-marinho em terra no caminho de volta; como não esperava, levei o maior susto! E ele também! Eu estagnei e ele tratou de ir rapidinho para a água. E cadê a máquina fotográfica nessas horas?! Acaba parecendo história de pescador! Bom, depois destes dias de descanso, chegou a hora de enfrentar a fronteira novamente e como achei que seria mais fácil no domingo, já que o escritório da aduana está fechado em Huaquillas e o “permiso” do carro é feito na fronteira mesmo, decidi levantar acampamento, me despedindo daqui com mais um ceviche. No momento em que cruzava a fronteira jogava Brasil x Peru. No lado peruano uma fila na imigração de umas 60 pessoas para um só fiscal, que mesmo assim assistia ao jogo e parava o atendimento quando a coisa apertava na partida. Quando saí ainda estava 0x0. Entrando no Equador, enquanto fazia a papelada, o primeiro gol. Ufa! Ainda bem que eu já estava do outro lado! E foi realmente mais fácil ter entrado hoje. Percorremos hoje 202 km.
 Punta Veleros ... em pleno domingão!
19/Novembro/2007 – Segunda Acordo, ou melhor, me levanto, depois de noite bastante agitada com o entra e sai dos carros e caminhões no posto em Machala. As 8:20h já estou rodando rumo a Cuenca e hoje consigo registrar melhor as radicais mudanças da vegetação e clima nestes 188 km desde o litoral ate a montanha. Na cidade grande passei num super para me abastecer de algumas coisinhas e segui para as ruínas de Ingapirca (Inga = Inca + pirca = muro, em Quíchua), primeiramente povoada pela cultura Cañari, que foi dominada pelos Incas e finalmente pelos espanhóis. Com uma família de russos e uma simpática tradutora, fazemos o recorrido com um guia local. Foi bastante interessante o intercâmbio russo x brasileiro x espanhol x inca. No caminho entre Cuenca e Ingapirca a geladeira se abre. Devo ter esquecido de travar depois de guardar as compras e lá se vai o que ainda tinha de molho mango-chutney preparado pela amiga Nina. Mais tarde, preparando um chá de limão com mel para ajudar a quebrar o frio, acaba o mel presenteado pela amiga Beth de Urubici - SC. ...e assim vou me lembrando dos/as queridos/as amigos/as com muito carinho. Obrigada meninas!!! Durmo por aqui mesmo nas ruínas. Ontem de biquíni na praia e a mais de 30ºC; hoje nos Andes, a 2ºC na madruga e a 3.170m. Haja adaptação para o organismo! Percorremos hoje 229 km.
 E olha que diferença... onde a água aparece!
 Ruínas de Ingapirca ...e nosso variado grupo
20/Novermbro/2007 – Terça Hoje sigo rumo a Alausí, pensando em chegar a Riobamba até o final do dia, de onde sai o trem para La Nariz del Diablo, um trecho da antiga ferrovia que ligava Cuenca a Guayaquil e que para vencer a forte pendente na descida dos Andes, precisou de uma bela engenharia em zigue-zague, que hoje é um emocionante passeio turístico. Em Alausí a estação de trem estava fechada, me obrigando a chegar mais cedo em Riobamba para a compra do ticket, mas ainda pude dar uma olhada nos e-mails e almoçar antes de seguir viagem. No caminho, do alto da serra, me assusto com o tamanho da cidade de Riobamba, que imaginava ser algo como uma cidade de interior. Perguntando, chego à estação ferroviária e... o trem não descerá La Nariz amanhã, pois com os tremores de terra que houveram nos últimos dias (sim, novamente pessoal! E eu estava em Los Órganos desta vez, mas como foi por volta das 22:15h, eu já dormia e nem percebi). Atingiu desde o norte do Peru até o sul da Colômbia, passando, claro, pelo Equador. Os trilhos estão em manutenção para retirada de pedras e eventuais reparos. Que ótimo! Bom, estas coisas são imprevisíveis e não se pode nem reclamar. No caminho conheci também a Laguna de Colta, a beira da Panamericana, e a Igreja de Balbanera, construída em 1534 à beira da mesma laguna logo que os espanhóis por aqui chegaram. Com esta mudança de planos decido seguir até Baños de Ambato, lugar muito conhecido por suas águas termais e imponente natureza preservada pelo Parque Nacional Llanganates, localizado aos pés do ativo vulcão Tungurahua e do rio Pastaza. Depois de circular um pouco pela região, me instalo com o carro no mirante de La Cruz / Bella Vista na esperança de ver o vulcão cuspindo suas lavas durante a noite. Dizem ser um espetáculo a parte, mas não tive sorte! O céu esteve totalmente encoberto todo o tempo. Nem sequer o Tungurahua consegui ver. Choveu e ventou. Percorremos hoje 331 km.
Igreja de Balbanera, fundada em 1534 Riobamba não é um vilarejo!
21/Novembro/2007 – Quarta Acordo, tomo café e banho e quando saio ainda não consigo avistar o tal vulcão. Ele não tá afim mesmo! Fazer o que! Subo mais um pouco a montanha para ir conhecer uma charmosa hostería; quem sabe num outro momento... e desço para Baños, parando para comprar umas guloseimas regionais. Hoje meu destino são os vulcões Carihuayrazu e Chimborazo, este último tido como o ponto mais alto do Equador, com 6.310m, e o ponto mais distante do centro da Terra, que devido a sua forma achatada na Linha do Equador chega a estar mais distante até do que o Everest, com seus 8.000 e tantos metros de altitude. Isto é o que eu chamaria de estar nas alturas! Pretendia visitar a Reserva Chimborazo, mas com a forte neblina enquanto contornava os vulcões, acabei passando a entrada e chegando a Guaranda, de onde segui para Salinas de Bolívar, meu destino final pretendido hoje. O lugar é conhecido pelas belas paisagens do caminho que, aliás, foram em todo o trajeto de hoje, e pelos queijos e chocolates aí fabricados. Claro que tratei de provar os dois! Já começando a noite, trato de me abrigar junto a um hotel e com a garoa que começa e a neblina que continua, trato de preparar eu mesma meu jantar: salmão ao molho de alcaparras com batata sotê, que tal! Percorremos hoje 159 km.
Guloseimas do caminho ...além da linda paisagem!
22/Novembro/2007 – Quinta Saindo de Salinas tomo o caminho errado e me perco pelas montanhas ao redor... Que lindo!!! Com curiosas formações rochosas, alto pra chuchu... e não é que acabo encontrando a entrada para a Reserva que passei ontem. Faço o caminho apreciando a paisagem, que aos pés do Chimborazo é cinza e árido pelas lavas outrora lançadas; curioso de se ver! Mas já mais próximo a Riobamba, volta a ser verde com pinheiros, extensos pastos cortados por riachinhos e ao fundo o nevado cume do imponente vulcão. Uhau!!! Na estação de trem novamente, que ontem por telefone me confirmaram que iria descer El Nariz, na verdade não vai. Agora sim fiquei irada e com razão! Liguei antes para saber! Mesmo com toda a ira não há nada a fazer. Trato de esfriar a cabeça indo checar os e-mails, almoçando e saindo para uma caminhada pela histórica cidade, que soube não ser a originalmente fundada pelos espanhóis, que hoje está soterrada sob as lavas. Mesmo assim tem um rico acervo arquitetônico; saí fotografando. Mais tarde, já que não pude curtir melhor a Reserva devido ao horário para a compra do ticke que não aconteceu, decido retornar ao Chimborazo e a um Lodge que vi pelo caminho na base Totorillas, excelente acampamento de apoio para quem pretende empreender a subida ao vulcão, onde acabo por conhecer Marcos Cruz, o proprietário, e seu cão, um filhote de pastor-alemão chamado Whimper. Com a casa cheia com um grupo de montanhistas da Espanha e outro da Alemanha e sem energia no local, estava meio atucanado. A 3.960m, na escura e fria noite, a única luz que brilhava no local era a do camper, acreditam! Percorremos hoje 133 km.
 Se perder vale a pena ...e olha o Chimborazo aí! Em Riobamba
23/Novembro/2007 – Sexta Noite das mais frias até agora! Mas bem agasalhada com uma 3ª manta e uma bolsa de água quente que tive de por em ação, dormi profundamente! Paz total! As 6h e pouco começo a ouvir movimentação e o pessoal da manutenção conversando em Quíchua, idioma dos antigos povos indígenas mantido pela maioria dos descendentes até hoje. Se ouve em qualquer lugar; pelas ruas, nas feiras, nos negócios... Bem interessante! Seguindo meu rumo passo por Riobamba novamente para checar o balanceamento de uma das rodas que pegou um forte buraco e descubro que o pneu foi avariado. Aqui não tenho como trocar, mas muito bem atendida sou indicada para um lugar em Quito, onde devo chegar em alguns dias. Sigo atenta com isso! Escolho um caminho diferente que passa pelo Valle de Collantes, aos arredores do vulcão El Altar, sem saber que a estrada estava interrompida depois da ultima erupção do Vulcão Tungurahua em 16/agosto/2006. Chego até o vilarejo de Puela, meio abandonado depois do susto, e sou abrigada a retornar até Guano, onde já havia passado, para poder pegar a Panamericana novamente. No caminho, com fome, paro para almoçar e acabo provando Tortillas de Maiz, feitas de milho e recheadas com queijo. Uma delicia! À beira da estrada vejo a Laguna de Yambo, mas sem grandes atrativos, decido seguir para a Laguna Quilotoa. No caminho sou premiada com um lindo céu laranja de um lado, com o pôr-do-sol, e uma maravilhosa lua cheia nascendo do outro, em meio às rochas e montanhas. Coisa de louco que as fotos não conseguem traduzir igual! Acabo chegando de noite ao meu destino e com a ajuda de uma índia me instalo junto a umas cabanas. Percorremos hoje 316 km.
 Lodge aos pés do Chimborazo; maravilho! Deliciosas tortillas de maiz, hum!
Fim de tarde... e começo da noite; dois espetáculos simultâneos!
24/Novembro/2007 – Sábado Dormi em 3 fases: bem, mal e bem! E quando finalmente saio da toca são quase 10h. Depois de um café da manhã na hostería, saio para uma caminhada até a cratera do Vulcão Quilotoa. Sua última erupção foi em 4/fevereiro/1797, desde quando se formou a laguna, que é de um verde esmeralda lindo! Sentei na borda e de lá fiquei admirando o lugar um bom tempo... Enquanto isso foi baixando uma névoa que acabou tirando por completo qualquer possibilidade de descer até a cratera. Que boa desculpa! De volta as cabanas, comprei um dos famosos quadrinhos de Tigua, que retratam a região com cores fortes e alegres, e segui rumo ao Parque Nacional Cotopaxi. No caminho, a neve e o gelo de ontem já não existiam mais. Coisa de momento! Na entrada do parque, paro num simpático restaurante e cafeteria buscando por informações e acabo almojantando e pernoitando no lugar, sugestão dos proprietários, já que era tarde avançada. Aproveito para escrever um pouco do DB. Percorremos hoje 110 km.
E olha minha surpresa no dia seguinte! Se ampliar da para ler
 Restaurante e cafeteria Huagra Corral... com linda vista ao Parque Nacional Cotopaxi!
25/Novembro/2007 – Domingo Enquanto tomava café no camper chega ao restaurante, ainda fechado, 2 carros com 4 motos. Acordam o pessoal, abrem o restaurante, se ocupam de quase todo o pátio entre carros e carretas, ligam as motos e saem a passeio depois de muito barulho. Lembranças dos meus idos tempos de apoio nos enduros e rallies. Parece uma realidade tão distante e “agressiva” hoje! Bom, aproveito que a porteira já está aberta e sigo para o parque. No caminho dou carona para uma das guias. Sigo para a Laguna de Limpiopungo, já quase seca, e depois subo até a primeira etapa ao Refugio José Rivas. Do “parqueadero” ao refugio propriamente dito são 300m, mas a 4.500m de altitude, é como se fossem 3 km. E montanha acima! O organismo sente o ar rarefeito! Sendo meio dia passado, a serração já está baixa e decido não arriscar hoje. Quizás amanhã... Desço o Cotopaxi e sigo para as Ruínas de Pucará El Salitre, onde se podem ver vestígios de construções incaicas, mas no caminho a garoa que vez por outra aparecia, decide ficar. Como o caminho é pedregoso, sigo até as ruínas, mas a visita fica meio comprometida. Volto ao entroncamento e desta vez pego a via para a base Tambopaxi, onde há uma área para camping e um belo restaurante. Aí me instalo para uma fria noite. Só que desta vez decidi colocar meu “super” aquecedor em ação novamente. Já tinha tentado há tempos atrás quando circulava pelo Valle de Colca no Peru, mas com o cheiro forte que exalou, desisti. Na verdade imaginava que isso acontecia porque era novo e precisava de uma queima prévia, mas nunca me dignei a experimentar e hoje chegou o dia. Dito e feito! Depois de montado deixei por um tempinho queimando fora do camper e... Iuhuuuu! Tenho aquecimento interno agora!!!!! Que evolução!!!!!! Não será mais uma noite fria pessoal!!! Percorremos hoje 45 km.
 Laguna de Limpiopungo Informaciones del volcano Cotopaxi
26/Novembro/2007 – Segunda Com a perspectiva de ver nascer uma linda lua cheia ontem a noite, com o aquecedor ligado consegui manter a porta do camper aberta e, deitada na cama, fiquei aguardando a madame aparecer... e não é que na hora H o céu encobre e nada. Bom, já que já estava na cama, fechei a porta e embarquei na viagem dos sonhos. E agora quentinhos!!! Hoje pela manhã decido subir novamente até a base do Cotopaxi e tentar a chegada até o tal refugio. As 9h já estava no estacionamento lá em cima e, claro, ninguém mais. Mas adoro essa paz da manhã quando o mundo ainda acorda! Como o tempo estava aberto e quase se podia ver o topo do vulcão, decido empreender subida e devagar vou galgando a montanha. O caminho é íngreme e não faço uma boa escolha, mas sigo. A meio destino aí vem a imprevisível serração. Sozinha, descido não continuar e vendo meu carro pequenininho lá embaixo, minha eterna ilha da salvação, sigo para ele frustrada. Desço novamente com o carro e tento um caminho indicado no mapa do parque, mas que já não existe mais. Quer saber, vou voltar a Tambopaxi e colocar a escrita em dia. Percebo um barulho diferente no carro e encontro uma das barras do quebra-mato sem um parafuso. Deve ter sido agora a pouco, pois ainda acho a junta caída na base. Volto devagar atenta ao parafuso, que é grande, mas sem grandes esperanças de encontrá-lo em meio às pedras do caminho. Tarefa para amanhã. Mas com a caixa de ferramentas aberta ainda faço alguns outros pequenos reparos... e termino o dia escrevendo. Percorremos hoje 63 km dentro do parque.
 Rumo ao Cotopaxi, um desafio para mim... rumo ao Atlas, meu eterno porto seguro!
27/Novembro/2007 – Terça Dia de muitos afazeres em Quito. Tratei de levantar acampamento o mais pronto possível e saindo pelo controle norte do parque, me deparo com uma paisagem ainda mais linda, mais verde, com mais vida e com o vulcão Cotopaxi excepcionalmente visível em meio a um céu muito límpido. Entrar em Quito foi mais fácil do que sair. Estaciono em Mariscal e começo minha peregrinação: roupa para lavar, almoço, internet, acertos finais nas agências de turismo para o tour a Galápagos, compra da papeete em substituição a outra que esqueci em cima do carro, retirada dos adesivos encomendados para o camper, negociação de novo pneu dianteiro em substituição ao danificado, controle financeiro... Ufa! No fim do dia volto ao já conhecido posto Repsol para pernoite e ainda me ponho a dar um trato no banheiro em função do wc químico que está se desintegrando cada vez mais. Esgotada, preparo um miojo e cama, terminando o dia lendo as instruções do Nemo I, “meu” veleiro em Galápagos. Que bárbaro! Percorremos hoje 84 km, além de outros tantos a pé.
 Saindo do parque... e me despedindo do vulcão Cotopaxi!
28/Novembro/2007 – Quarta Antes de sair do posto abasteço água e vou direto à Ford para pequena manutenção, mas o carro acaba ficando por lá o dia todo e aproveito para continuar meus afazeres pelo centro a pé. Rendeu! No final da tarde sento num café e curto o movimento da cidade. Quito está em festa pelo seu aniversario. Aproveito para pensar na proposta que me surgiu hoje de ir passar o Ano Novo no Brasil... A principio me soa estranho... De volta ao Repsol, passo minha última noite por aqui. Percorremos hoje 11 km e mais um bocado a pé.
 Querem acompanhar a desintegração de um WC químico? ... então aqui vai!
29/Novembro/2007 – Quinta ...com essa última de uma possível ida ao Brasil no fim do ano, de minha inquieta mente surgiram mil possibilidades durante a noite. As 7h da manhã estava frente ao cyber aguardando abrir para averiguar informações e falar com todos os envolvidos. ...e nisso fiquei algumas horas em “negociação”. Depois banco, mercado e estrada rumo a Otavalo. O pneu ruim exige minha atenção, uma vez que não pude trocar ontem mesmo; parece estar piorando! Sem gás, segui até Ibarra para recarregar os botijões na AGIP. Mais uma vez foram super gentis, obrigada! Escolho novamente a Hostería Los Pinos de Cuicocha para me refugiar, enquanto organizo os últimos preparativos para a semana em Galápagos e “recarrego um pouco minhas baterias” neste tranquilo lugar. Como não aparece viva alma por aqui, me instalo no mesmo lugar indicado antes e preparo um jantar descontraído: salada de tomate com queijo e ervas finas, pão, manteiga, camembert e vinho tinto, que tal!? Nada light, mas de vez em quando... Depois disso só cama. Fui! Faz menos frio que da outra vez. Percorremos hoje 172 km.
30/Novembro/2007 – Sexta Dia tranqüilo na hostería concluindo os preparativos. No meio disso brincava com os cachorros. No final da tarde uma ida até o vilarejo de Cotacachi para uma volta e cyber. Encontro um e-mail da Ford querendo publicar uma matéria do Projeto Rumo na revista Conexão. De volta ao QG, trato de jantar uma deliciosa Truta al Ajillo; de postre, pastel de maçã com sorvete, huuuum! Tudo preparado pelos próprios proprietários e servido a beira da lareira! Imaginem!!! Percorremos hoje 33 km.
 À beira da lareira na Hostería Pinos de Cuicocha
01/Dezembro/2007 – Sábado Finalmente um dia tranqüilo para curtir a tão falada feira de Otavalo! Coisa de louco pelo colorido, pela diversidade de produtos, pela gente da terra, pelos aromas, texturas... Cheguei às 10h e pouco e só fui embora as 16:20h. ...e nem vi o tempo passar! E quer saber? Ainda ficaria mais!!! Não fiz grandes compras, mas matei a vontade das redes de tão lindas. Comprei umas 3 ou 4! No caminho de volta a Quito fui rezando para o pneu não estourar. Só iria conseguir trocar na volta de Galápagos. Seguindo as indicações da Maira, a agente de turismo da Galaterra quem gentilmente iria cuidar do Atlas enquanto eu estivesse fora, consigo chegar ao endereço indicado na primeira tentativa. Já estou quase me sentindo em casa em Quito, quem diria! Me acomodo, preparo algo para jantar e cama, que o dia começa cedo amanhã. Percorremos hoje 127 km.
 Feira de Otavalo, com sua gente ...cores ...e aromas! Amei!
02/Dezembro/2007 – Domingo E não é que chegou o dia de conhecer as tão almejadas Ilhas Galápagos!!! Depois de tanta historia ao redor deste assunto... As 5h de la matina estava de pé. As 6h me apanhavam para levar ao aeroporto. No embarque, a primeira coisa é a fiscalização da bagagem por víveres; nada pode ir ou vir das ilhas para não alterar seu eco-sistema, uma vez que muitos espécimes da flora e fauna locais são endêmicos, ou seja, só existem naquelas ilhas. O vôo segue para Guayaquil e depois Baltra. Aqui o grupo se junta. Somos 9 italianos, 1 australiana com quem acabo dividindo a cabine, e 1 norueguesa, além de mim. No barco são 6 os tripulantes e mais 1 guia que nos auxiliarão durante esses 8 dias de tour. Em Baltra, seguimos de ônibus até o ancoradouro e embarcamos. Que lindo nosso veleiro!!! A bordo, briefing com distribuição das cabines, almoço e navegação até a praia de Bachas, ao norte da ilha de Santa Cruz, onde desembarcamos e fizemos a primeira caminhada. Desembarque “molhado”, diretamente na praia, de areia clara e mar turquesa. Vimos nesta: cactos, plantas de mangue começando a se desenvolver, caranguejos cor de laranja, iguanas marinhos (endêmicos desta ilha!), flamingos, pelicanos... De volta a praia, snorkeling, mas sem muita visibilidade; apenas peixinhos ao redor dos corais. A bordo novamente, aperitivo, banho, cocktail de apresentação da tripulação, um lindo por de sol, seguido do jantar. Parece um sonho! Dormimos ancorados por aqui mesmo, tranquilamente! Fuso horário em Galápagos: 1h a menos que no continente, oba! Ganhamos 1h neste maravilhoso lugar! Hoje, com o Atlas, não percorri nenhum km; ele estará descansando nos próximos dias!
 Chegando em Baltra Bem vindos a Galápagos!
 Finalmente embarcando! Meu lar nos próximos dias
 Caranguejos em ritual de acasalamento Iguanas, em cada ilha um espécime, reparem!
03/Dezembro/2007 – Segunda Logo pela manhã navegamos até North Seymour Island, onde fizemos um desembarque “seco”, do barco a um píer ou pedra sem precisar molhar os pés. De cara já vemos muitos leões marinhos, inclusive uma mãe com um filhote recém nascido. Aqui também vemos os caranguejos cor de laranja, além dos Blue Foot Bobbies já vistos antes na Isla La Plata, fragatas e mais iguanas de outro espécime. Nesta ilha, uma vegetação rasteira vermelha chama a atenção pela cor tão viva. No reembarque, temos que ficar atentos a um macho que está por perto e se impondo. Ainda pela manhã fazemos nosso primeiro mergulho em águas profundas, que significa não termos praia ou terra como ponto de apoio; o dingue (bote de borracha) é nosso porto seguro. E aqui vivemos um dos mergulhos mais emocionantes desta viagem, nadando livremente com leões marinhos que, já familiarizados com os seres humanos, se divertem com a gente vindo numa velocidade alucinante em rumo de colisão e se desviando somente no último instante, fazendo sentir no rosto as bolhas de ar e a turbulência de sua velocidade; incrível!!! Principalmente depois da primeira experiência, quando o coração vem parar na boca. rsrsrs. Eram dois filhotes e uma mãe, que acompanhava nosso movimento de longe. Depois do almoço seguimos para South Plazas Islands. Aqui, em mais uma caminhada, avistamos outras iguanas, diferentes cactos e mais leões-marinhos, estes últimos vindo a se tornar nossos companheiros diários nas visitas em terra.
 Mãe com filhote recém nascido Olha o show de cores!
 ...e mais iguanas ...um diferente do outro!
 Olha nós aqui outra vez; sou o Blue Foot Boby... e eu a Fragata; já nos vimos em Isla La Plata!
 E como o guia do Equador evaporou... estes dois ficaram sem identificação; quem souber informar!
04/Dezembro/2008 – Terça Acordamos Española Island para um “desembarque seco” em Punta Suarez. O mar era de um turquesa estonteante! E na praia, dois filhotes de leão-marinho davam um show de brincadeiras. Desta ilha eram os “iguanas natalinos”, assim apelidados por nós por sua cor. Também pudemos ver outras tantas aves com filhotes recém nascidos, além de uma fragata jovem; que coisinha feia coitada! À tarde rumamos para Gardner Bay para outro mergulho em águas profundas e um “desembarque molhado” numa praia de areia branca e fininha forrada de leões-marinhos. Um filhote desconsolado andou a praia inteira atrás de sua mãe e... nada. Ela devia estar em busca de alimento. De volta ao barco, veio a noticia de que um dos dessalinizadores (equipamento que transforma água do mar em potável) apresentava problema; com isso tivemos de fazer uma ancoragem estratégica na ilha de Santa Cruz. Foi incrível a eficiência da empresa, que já nos aguardava com a peça em mãos! E já que estávamos lá e esta é a única ilha com alguma estrutura de lazer, nos ofereceram para desembarcar e aproveitar a noitada, mas para surpresa, todos preferiram ficar a bordo. Ancorados por aqui jantamos e tivemos um show de leões-marinhos que subiram ao barco pelas escadas de popa; incrível! E o show se estendeu pela noite adentro mesmo depois de termos nos recolhido, com um macho soltando seus grunhidos, alucinado por manter seu harém reunido; e o som se ampliava ainda mais quando ele passava entre os dois cascos do catamarã; saímos de lá fluentes em “leão-marinhez”: uo uo uo! Quando zarpamos já era madrugada e sem ter conseguido pegar no sono fui para o deck acompanhar a navegação por essa imensa escuridão. Que coisa mais linda!!! Que energia mais forte!!! Como gosto disso!!!
 Que mar!!! Só mesmo de óculos escuros. rsrsrs E este foi apelidado de "iguana natalino"
 Filhote de fragata; coitadinho! A praia era deles!
 Jantar a bordo... com direito a espetáculo!
05/Dezembro/2007 – Quarta Dia de visita a Floreana Island com parada em Post Office Bay. É tradição de quem desce nesta ilha dar uma olhada na caixa de correios (por isso o nome do lugar!) para ver se tem alguma correspondência que possa seguir com você para seu próximo destino e ser encaminhada; divertido! Mas para o Brasil ou Peru não encontrei nada. Deixei a minha lá; veremos a eficiência do serviço... Aqui pudemos curtir um pouco de praia e mergulhar pelos costões, além de assistir a uma “pelada” entre as tripulações ancoradas; até aqui o futebol aparece! Depois do almoço mergulho em águas profundas nos arredores de Champion Island, para em seguida desembarcarmos em Punta Cormorant; avistamos flamingos numa lagoa e seguindo por trilha até o outro lado da ilha, uma praia repleta de tartarugas e arraias. ...e o céu se pôs cinza chumbo; assustador!
 Cumprindo o ritual em Post Office Bay Natureza em harmonia!
 Aqui, tartarugas convivem com arraias... e o céu se põe cinza chumbo!
06/Dezembro/2007 – Quinta O dia começa com desembarque em Santa Fé Island. A maré baixa dificulta nossa chegada à praia. Muitos filhotes de leão-marinho protegidos por suas mães e por um macho que quase não nos deixa embarcar de volta ao dingue; cuidava de seu harém! Navegamos mais uma vez para Santa Cruz Island (aquela da parada estratégica) só que agora desembarcamos todos para uma visita ao Mariposa Ranch, com uma colônia de tartarugas gigantes vivendo em seu meio habitat, e outra visita a Estação Charles Darwin na sede do Parque Nacional de Galápagos. Mais tarde tivemos tempo livre para conhecer melhor a ilha. Tone, Kathine e eu circulamos curiosas e errantes pelas ruelas. Num café sentamos para tomar algo e... encontro cachaça brasileira. Pena não ser dos melhores exemplares!
 Filhote mamando, mãe descansando... e macho cuidando da aproximação
... DSCN5393.JPG) Cactos... e tartarugas gigantes (mesmo!)
07/Dezembro/2007 – Sexta Hoje o café da manhã foi navegando e na chegada a Bartolome Island, a visão do Pinacolo Rock; lindo! Desembarcamos, e de terra se viam caldeiras submersas de antigos vulcões chamados de conos secundários; impressionante! Seguimos ilha acima até chegar ao topo de onde se tinha uma vista maravilhosa. Mais uma vez pudemos comprovar a origem vulcânica destas ilhas; avistávamos pequenas crateras ao redor, um solo completamente árido, cactos, rocha negra... características estas encontradas em todo o arquipélago e que não deixavam sombra de dúvidas. De volta ao barco seguimos para o outro lado da ilha onde desembarcamos para curtir um pouco a praia e fazer snorkeling. Desde o primeiro mergulho nos avisaram que se em algum momento topássemos com algum tubarão, aqui eles são “boa gente”; não entrem em pânico! O difícil é se acostumar com essa idéia! À tarde seguimos para James Bay em Santiago Island. Em terra, era incrível o número de iguanas marinhos; tínhamos que tomar cuidado para não pisar em nenhum! Como se abastecem de água do mar, eles tem a capacidade de “filtrar” o sal e de tanto em tanto o cospem pelas narinas, o que funciona também como um aviso se eventualmente chegamos perto demais! Também pude vivenciar a interação de dois filhotes de leões-marinhos comigo enquanto filmava; confesso que me emocionei e foi um momento muito especial! Completando a cena, tivemos um super pôr-do-sol e ao mesmo tempo me deu uma pontinha de aperto no peito por estar chegando ao final uma experiência tão linda como esta vivida por aqui. Sou feliz por poder ter experimentado em algum lugar tamanha interação entre o homem, os animais e a natureza! Isso mostra como o respeito é tudo nessa vida para um bom convívio!!! Durante o jantar, como que respondendo ao agradecimento, mais leões-marinhos subiram a bordo! Eles foram nossos companheiros diários em terra ou em mergulhos desde o primeiro dia nestas ilhas. Será que isso tudo é combinado!?!
 Visão do Pinacolo Rock Cono secundário, antiga cratera de vulcão
 Reparem no número de iguanas!
08/Dezembro/2007 - Sábado Calma pessoal, ainda temos mais um dia e meio por aqui... Foi só um momento de nostalgia! Pela manhã desembarcamos em Rabida Island. Durante a caminhada, lindo visual, além de visitarmos um ninhal de pelicanos com filhotes esganiçados de todo tamanho. Depois pudemos curtir a praia, que era de uma areia vermelha, dividindo o espaço com vários leões-marinhos. Um filhote curioso decidiu circular entre nós e os equipamentos sem a menor cerimônia. Coisa mais fofa! De volta ao barco seguimos para Chinese Hat Island, só que desta vez navegando à vela. O vento era forte e o barco velejava bem só com as duas genoas (velas de proa); vez por outra estourava uma onda no costado o que tornava a navegação não muito confortável para os menos acostumados, motivo pelo qual se navega mais a motor contumados por outra estourava uma onda no costado e para os que nao uilinoajar, nr mlhorte? passosita a flamingos numa lagoa , mas a maioria estava curtindo e muito a experiência, e eu, quase em delírios! Como é lindo sentir toda essa força! Depois do almoço fomos para nosso último mergulho em águas profundas e foi dos melhores pela excelente visibilidade, variedade de peixes e corais, pela companhia de um pingüim que assustado com uma ave em terra que o mirava, se refugiava nadando entre nós... Há quem tenha visto tubarão, o que não foi meu caso (ainda bem! rsrsrs) mas por ironia do destino, esqueci minha máquina fotográfica a bordo e essas imagens só ficarão na lembrança, ou como uma boa desculpa para voltar a este lugar maravilhoso, afinal, ainda há mais ilhas por conhecer. Como esta seria a última noite a bordo, tivemos um cocktail de despedida com toda a eficiente e simpática tripulação. Foram de mais! Super obrigada!
 Bebê leão-marinho curioseando Ninhal de pelicanos Velejando!!!
09/Dezembro/2007 – Domingo Hoje nosso dia começou antes mesmo do café da manhã. As 6:15h já estávamos no dingue para o Panga Ride, que consistia em driblar a arrebentação e entrar num mangue para observação da fauna e flora, com direito a acasalamento de tartarugas e avistamento de tubarões que circulavam por entre as raízes das arvores submersas. De volta ao barco, foi hora de tomar café e seguirmos para Santa Cruz Island, onde desembarcamos e voamos de volta a Quito. A expressão no rosto de cada um não escondia os sentimentos do momento. Tivemos um excelente convívio, com uma turma “topa tudo” e bastante animada (claro, eram em maioria italianos!) e estes momentos com certeza deixarão saudades em todos, que sem exceção, expressavam um alto grau de satisfação pelos dias passados juntos em Galápagos. Valeu pessoal!!! Em Quito, Maira da agência Galaterra me aguardava no aeroporto para levar de volta ao Atlas. Estes foram dias de folga para ele, que tem sido absolutamente fiel em todas as suas obrigações nesta jornada. Eu já estava com saudades! E a próxima novidade é que terei a companhia da Tone (a norueguesa) até Lima-Peru, meu próximo destino. Por esta noite ela ficará num hostel para “aterrissar” e se organizar, mas ainda saímos para almojantar e irmos a um cyber nos atualizarmos. Caminhando pelas ruas de Quito tivemos ótima conversa.
Amanhecer no mangue Ops! Desculpe o incômodo!
 Tubarões pelo mangue Kathina, companheira de cabine
À eficiente e simpática tripulação, meu obrigada! Desânimo geral no desembarque!
 ESTE LUGAR DEIXARÁ SAUDADES!!!
OI PESSOAL, ESTOU DE VOLTA!!! Aproveitem as histórias até aqui, mas ainda continuo...
...19/Março/2008 - Quarta, estou em Santiago do Chile. 01/06/2008 - Domingo
...e olha eu aqui nessa terrinha outra vez! Quanta coisa linda para conhecer por aqui também... Depois desse giro pela América do Sul posso dizer que praias como as nossas não há em qualquer lugar. São realmente muito lindas, temos de reconhecer nossos méritos!!! Que saudades dos amigos... do “quintal” da minha casa em Floripa... da Seqüência de Camarão acompanha de uma boa caipirinha... da nossa gente... Vou tratar de usufruir as coisas boas de estar por aqui, enquanto me preparo para a próxima etapa. E vou adorar recomeçar a contar minhas historias a cada um de vocês que tiveram a paciência de esperar pelas novidades. Em breve estarei retomando o Diário de Bordo e logo de cara terei as experiências e fotos de Galápagos para mostrar a vocês. Até já!
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